Reflexão
A construção de si….
20 de junho de 2016
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Hoje me peguei saudoso, relembrando dos tempos em que vivia a pleno, o conceito de família. Reuniões frequentes na casa da matriarca; muitos tios, tias, primos, amigos, churrasco, bebericos; a casa dividida em funções, onde normalmente as mulheres se encarregavam de produzir o almoço e os homens tratavam de não deixar a carne do churrasco queimar.

Desde muito cedo participei desses encontros e todos eles eram regados a muita cantoria, muita conversa fiada, piadas, brincadeiras e ali, sinto eu, havia uma congregação, uma comunhão de objetivos e eles eram muito sublimes. Nada era mais importante do que passar um dia ou um final de semana inteiro se divertindo, afastando da mente as perturbações provocadas pela rotina pesada de quem não goza de confortável condição sócio financeira. Havia troca de ideias, atitudes desinteressadas e abnegadas, como uma espécie de solidariedade, totalmente gratuita. As intromissões na vida alheia, muito comuns por parte dos familiares que mantém a ideia de posse, de direitos autorais sobre a prole como um todo, sequer causavam desconforto ou espécie. Tirava-se de letra toda e qualquer tentativa de malgrado ou uma possível desavença.

Como disse, comecei ainda criança a participar disso. Vi uma estrutura tradicional de família sendo elaborada, edificada e vivida. A hierarquia máxima dos pais sobre os filhos, que se comunicavam até mesmo com olhares, uns mais fitados outros mansos. Acompanhei o nascimento de primos, vendo aumentar o número de integrantes das reuniões. Vi mudar, paulatinamente, os conceitos que enraizaram esse processo.

Para alguns dessa extensa família as atividades perduram, já para mim não. Mas esse escrito quer falar sobre uma coisa totalmente pertinente a isto, que não é essa ida e vinda do seio mater de todo cidadão. Após um dia de trabalho, me observei ouvindo músicas que remeteram diretamente a estes citados encontros. Músicas intituladas sertanejas, caipiras mesmo, que compunham o repertório dos finais de semana de outrora.

Desenvolvi, com o tempo, forte apreço pela música, principalmente pelo Rock n’ Roll, mas hoje, ao me flagrar cantarolando atrapalhadamente letras que insistem em permanecer ativas na memória, ainda que já apresentando falhas e ligeiros esquecimentos, resolvi pensar no por quê desse momento. Naturalmente, é herege querer diagnosticar com precisão o momento em si, mas tenho um palpite e ele é de todo íntimo, pessoal e intransferível e caso você encontre nele identificação, certamente é devido a repetibilidade de alguns processos de vida.

Minha juventude e adolescência foram um tanto conturbadas e dizem respeito aos pais. Meu espírito rebelde já se manifestava desde cedo, amplificando situações a níveis de problemas e potencializando uma situação que já era delicada por si, devido a incompatibilidade imensa de mentalidade entre os integrantes da minha família. Logo, a minha referência de música jamais poderia ser a mesma daqueles com quem não conservava harmoniosa convivência, o que aumentava a intensidade das ações rebeldes, e quer gênero musical que melhor representa o rebelde que o rock? Há quem diga que da década de 60 até dias de hoje, a santíssima trindade da humanidade é composta por sexo, drogas e rock and roll, mas não vamos fazer disso uma pecha banal.

O fato é que os anos se passaram e as pessoas, assim como o tempo e os anos, também passam. Uns passam rápido demais e parafraseando Rolando Boldrin, artista brasileiro, “viajam fora do combinado”, deixando espaços e buracos que precisam, em algum momento da vida, serem preenchidos pelo elixir do auto conhecimento, sobretudo, de modo que a não compreensão e investigação das dores, feridas e buracos ainda abertos em si, tendem a criar efeitos somáticos (negativos) em nossas vidas, criando complicações diárias e muitas vezes sofríveis.

Não se trata de penalização, de lei de causa e efeito, muito menos castigo ou recompensa. Creio na ideia das consequências.  A bíblia católica, em Êxodo, 20, trás uma ideia simplória do que quero lhes dizer: “Honra teu pai e tua mãe”. Embora seja comumente difícil uma equalização fina, um acerto primoroso entre as gerações que constituem esse primeiro núcleo social, é um conselho a se refletir. Muito, mas muito mesmo do que somos e do que nos tornaremos, advirão das primeiras lembranças, dos momentos vividos neste seio, em meio a pessoas que aos seus modos, desejam-nos o melhor. Não acredito que meus pais desejassem fervorosamente que eu me tornasse um cantor sertanejo ou que sequer adorasse o mesmo estilo musical que eles, mas certamente desejariam que independente do gênero, vibe, trupe ou grupo que eu me afeiçoasse e participasse, que ele trouxesse o melhor para mim, simbolizando fraternidade e comunhão de ideias e ideais e sobretudo, paz.

Em suma, o momento que vivi hoje, saudoso e reflexivo enquanto cantarolava e ouvia as canções que me remeteram a outros tempos, acenderam em mim uma certeza; a de que precisamos, a todo instante, em casa segundo, ser cauteloso e sensível para entregarmos o melhor de nós a quem dedica seu tempo ao convívio conosco, a quem lança mão do direito de uma liberdade maior para doar-se em absoluta certeza de que em união, principalmente de sentimentos, é possível construir muito, sejam eles pais, filhos, amigos, vizinhos, o que for, pois fatalmente todos tem, em sua rede de relacionamentos, pessoas que são sim especiais e que merecem, no mínimo, o nosso melhor.

E eu aproveito para lhe emprestar uma ideia, a qual eu acredito ser muito importante. Esteja sempre rodeado de pessoas que acreditam em você. De pessoas que sonham o teu sonho, que abraçam a tua dor e pulam a tua alegria. Esteja perto de pessoas que mesmo te achando maluco ou rindo de uma ideia destrambelhada, olham nos seus olhos e dizem; seja lá o que for, eu estarei contigo. Não precisamos fortalecer as estatísticas que apontam para a glória apenas quando a vida é póstuma. Façamos a vida valer a pena desde já. A nossa e de todos aqueles a quem pudermos encantar.

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Flavio da Luz

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