Filosofia
A exigência do brilhantismo ofuscando a genialidade.
21 de junho de 2016
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A exigência do brilhantismo ofuscando a genialidade.

O que de mais forte pode nos afastar do acerto, além da exigência, íntima ou externa, em sermos perfeitos? Poucas coisas.

A era da extrema competitividade, tem nos levado por caminhos muito difíceis de serem percorridos. Como se não bastasse a concorrência implícita no generoso volume de pessoas disputando a mesma coisa, acrescemos à essa batalha, ingredientes de derrocada, que tem feito do “viver”, um suplício, um martírio existencial.

De repente, ou nem tão de repente assim, percebemos que para sermos aceitos e incluídos em blocos sociais pretendidos, precisamos não apenas sermos autênticos e únicos, temos de contaminar nossas camadas individuais, com componentes extraídos de um conjunto de pessoas e processos, como se fossemos, cada um, uma seleção, um lugar onde podemos no
s moldar e fazer tal qual a exigência nos é apresentada. Não é bem assim.

Guardo a dolorosa impressão de que as pessoas tem se distanciado demais da simplicidade, e vide formidáveis exemplos históricos – e domésticos, por que não? – a simplicidade é um resumo de processos que traduzem o conjunto de ações vividas até um determinado momento, em ato de felicidade, de alegria. A simplicidade é a exemplificação resumida da potência de agir. Força propulsora que torna tudo capaz e possível, seja pela ingenuidade, pela incredulidade ou pelo excesso de conhecimento.

Nas requintadas filosofias, encontramos conclusões acerca da necessidade de sermos simples, atribuindo a ela até, o mais alto grau de sofisticação de um ser. Pudera, pois no mundo de hoje, ser simples, tornou-se objeto de apreciação e estudo pela maioria. Uma pessoa que diz não se importar com grifes, alta gastronomia ou que não adere a movimentos sociais repentinos e anunciadamente efêmeros, é vista com estranheza e até desdém. É bem verdade que ao longo da história, os povos parecem terem se organizados para excluir e distinguir tipos e espécies, tipificando, a seu bel entendimento, os que preenchiam as características necessárias para pertencer ou não, ao novo mundo em desenvolvimento, ao novo projeto ou a nova fase da vida.

Hoje em dia as coisas não são muito diferentes do que foram sempre. Mesmo com o advento ainda crescente dos meios virtuais e digitais, as pessoas tem transferido para estes meios, suas vontades mais reprimidas e ocultas e é a partir daí que surgem, exponencialmente, cada vez mais meandros dificultosos para o bom convívio. É indiscutível que as ferramentas digitais afastaram as pessoas. Hoje falamos com qualquer pessoa sem sentir seu cheiro, sem dar e receber um abraço, ouvir a respiração, olhar nos olhos. E que me perdoem os que já nasceram em meio a tudo isso e que naturalmente o tem como normal, mas há coisas inerentes a boa saúde do ser humano que vão muito além das praticidades e comodidades trazidas pelo acesso ao computador.

As discussões voltadas para a inclusão, por mais que sejam debatidas em ambientes propícios como salas de aula, assembleias legislativas, fóruns sócio políticos, universidades e etc., acendem um alerta: estamos realmente trabalhando para a inclusão de todos ou estamos setorizando a sociedade para que possamos, mais tarde, de fato, integrá-la a um todo? Tenho a nítida impressão de que estamos abraçando de braços fechados ou esticados, como se ao invés de acolher, afastamos o outro de modo a manter uma distância “segura” de nós.

Criam-se blocos, grupos, conjuntos para dizer: “este grupo luta contra aquele grupo que segrega aquele outro”. Oras, onde está a coalizão? Esse modo é inteiramente fundado sobre pedagogias políticas, que fomentam lideranças, mantendo viva a ideia de diferenciais, coisa que dizem combater. Para incluir, você não precisa falar muito, assim como para muitas outras coisas; você precisa fazer, dar o exemplo, manifestar interesse e capacidade para realizar aquilo que prega. São atitudes que devem dominar o discurso e não o contrário. Não temos mais espaço em nossa sociedade, para tanto “faça o que eu digo, não faça o que eu faço.” Não queremos mais ver pessoas dizendo o que e como devemos fazer algo. Queremos e precisamos de pessoas que nos mostrem, com clareza e simplicidade, o que podemos fazer para vivermos melhor e tenho certeza, não é nada de extraordinário, como querem nos fazer crer que seja.

Não posso acreditar que o ser humano, com todas as suas inatas capacidades e faculdades, tenha subvertido o significado de competição. Não dá pra aceitar que em meio a tantos e tantos exemplos de desgraças motivados por ambições frágeis, ainda necessitemos parecer superiores uns aos outros, forçando pessoas a serem o que não podem ser, a fazerem o que não podem fazer, a buscar o que jamais vão alcançar….

Albert Einstein, cientista alemão, que embora não tenha sido escritor de auto ajuda, deu início a carreira de muitos mundo a fora, certa vez disse: “Todo ser é genial. Mas se você julgar um peixe pela sua capacidade de subir em árvores, ele passará a vida inteira acreditando ser um estúpido.” Creio que esse aforismo retrata e resume bem esse meu pensamento. Precisamos, ao invés de tentar formatar e construir protótipos em constante avanço e submetidos a inúmeras atualizações, enaltecer, cada vez mais, as características individuais positivas de cada ser, fortalecendo a sua existência, alicerçado pela certeza de sua imensa utilidade e importância ao mundo. Não podemos mais selecionar ou atribuir valor a vida, humana ou animal, pela sua capacidade de seguir caminhos que não são indicados para todos. Precisamos investir mais em aceitação.

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Flavio da Luz

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There are 2 comments

  • Israel Almeida disse:

    “seja pela ingenuidade, pela incredulidade ou pelo excesso de conhecimento.”
    Entre muitas conclusões excepcionais desse texto, ressalto o brilhantismo dessa frase que apresenta algumas condições em que encontramos relevantes doses de simplicidade em um ser humano. Tenho uma opinião formada sobre simplicidade que se encontra muito próxima da visão expressada nesse texto. Acredito que o ser humano ingênuo preserva a sua simplicidade pela não exposição a competitividade e pela ausência de estímulos que fazem da inteligência uma arma egoísta e desumana na busca de poderes, posses e todo o tipo de conquista. Por outro lado, quando esse mesmo ser humano entende que ser é uma conquista mais elevada que ter, existe uma inversão. A busca pelo conhecimento profissional é superada pela busca do conhecimento de si mesmo, e como resultado dessa mudança, muitos atingem o conhecimento extremo e reencontram a simplicidade perdida.

  • Israel Almeida disse:

    “A simplicidade é a exemplificação simplificada da potência de agir. Força propulsora que torna tudo capaz e possível, seja pela ingenuidade, pela incredulidade ou pelo excesso de conhecimento.”
    Entre muitas conclusões excepcionais desse texto, ressalto o brilhantismo dessa frase que apresenta algumas condições em que encontramos relevantes doses de simplicidade em um ser humano. Tenho uma opinião formada sobre simplicidade que se encontra muito próxima da visão expressada nesse texto. Acredito que o ser humano ingênuo preserva a sua simplicidade pela não exposição a competitividade e pela ausência de estímulos que fazem da inteligência uma arma egoísta e desumana na busca de poderes, posses e todo o tipo de conquista. Por outro lado, quando esse mesmo ser humano entende que ser é uma conquista mais elevada que ter, existe uma inversão. A busca pelo conhecimento profissional é superada pela busca do conhecimento de si mesmo, e como resultado dessa mudança, muitos atingem o conhecimento extremo e reencontram a simplicidade perdida.

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