Reflexão Viagem
A busca que precisa ser entendida.
1 de julho de 2016
0
Ruínas Machu Picchu

Em Novembro de 2012, quando ainda era voluntário em uma instituição que tem como braço o apoio a pacientes vitimados pelo câncer, embarquei em uma viagem ao Peru, mais precisamente para o roteiro Inca, que tem como destino final, a cidade sagrada dos Incas, Machu Picchu, sobre ela, falarei adiante.

Essa viagem, que é corriqueira nessa instituição, é intitulada como missão. Certamente pelo contexto antropológico, de buscas, de conhecimento histórico e de possibilidade de reflexão e introspecção, uma vez que trata-se, no caso do Peru, de uma cultura muito peculiar, própria, não encontrada em lugar algum do mundo. Não era uma viagem de cunho turístico, embora as paisagens e o ineditismo para muitos dos participantes não deixasse esse sentimento distante.

Naquele tempo, eu vivia uma experiência dicotômica. Sou criado dentro do catolicismo, onde fiz primeira comunhão, frequentei igrejas aos domingos e dias santos, sempre guiados pelos meus pais, católicos, que não abriam mão desse processo na família. Desde muito cedo, questionava os disparates existentes entre a realidade, a prática e a doutrina que seguiam, que frequentavam, que veneravam. Com o tempo, a sagacidade foi se associando a rebeldia e os questionamentos ganharam tons mais severos, pesados e intimidadores. Quando na adolescência, trabalhando desde muito jovem, consegui uma certa alforria em relação às obrigações religiosas do lar, podendo, a partir daí, optar por não mais frequentar missas ou eventos religiosos. O tempo passou e a carga excessiva de trabalho e eventos traumáticos vividos a partir do fim da infância, cobraram reparos na área da saúde psicológica, passando a depressão e o stress fazerem parte da minha rotina.

Como a rebeldia e os questionamentos passaram a me acompanhar, cada vez em maior escala, quando comecei a frequentar consultórios psicoterapêuticos, deparei-me com procedimentos inconsistentes e insuficientes para a demanda que eu apresentava, embora me encantava o conhecimento e a forma como o processo era tratado pelos profissionais da área. Levado pela curiosidade e pela necessidade de encontrar elementos que melhor atendesses a minha busca, o boca a boca me levou ao esoterismo, apontando sempre para doutrinas espíritas, sub categorizadas por Kardecismo – doutrina que deriva do pentateuco deixado pelo autor francês, Hippolyte Léon Denizard Rivail, vulgo Allan Kardec, que acreditava ter decodificado sinais trazidos por espíritos ou almas, de pessoas que já viveram neste planeta e que passavam a contribuir para o desenvolvimento humano desse local.

Inicialmente, tudo faz sentido. Quando você está repleto de dúvidas não respondidas, um novo panorama acerca do tema, costuma trazer a tona o benefício da dúvida, impondo um certo maniqueísmo, que passa a desafiar o cidadão a viver uma nova rotina, dimensionada sob uma nova ótica com novas percepções. Estranhamente, isso ativa alguns sensores até então inertes, fazendo com que um levante no estado psicoemocional ocorra, ajudando a despertar o ser para um novo estágio, o da esperança adormecida.

Porém, o passo a passo dentro de uma organização um pouco mais estruturada, acaba por oferecer mecanismos filosóficos, que robustecem as teorias de combate a essas práticas. Foi o que aconteceu comigo: O tempo passando, o sentimento de melhora e recuperação ganhando força e forma, foi despertando o desejo pelo estudo, pelo conhecimento, pelo entendimento de como aquelas coisas poderiam funcionar, sem nenhum amparo científico, técnico ou mesmo por uma explicação que tenha comprovação cabal, não através de empirismos baratos, atrelados a interesses escusos de pessoas cujas deficiências de caráter se sobrepõem as reais essências, fato este que me levou a tentar encontrar as possíveis reais essências.

Naquele ano,  2012, após 5 anos de dedicação quase que diária, além de muito envolvimento com todo o processo, a relação entre eu, instituição e fé estava pra lá de estremecida. Havia ranhuras em toda minha base de crenças, tanto quanto ao mundo como para com as pessoas. Neste período, surgiu a possibilidade de viajar ao Peru, incluso na Missão aos Andes, nome que levava o roteiro.

A premissa dessa viagem era a do encontro com processos sagrados, pois a instituição mantém uma (estranha) filosofia de associação direta entre entidades Xamânicas, oriundas dos andes, principalmente regiões de Pisac, um vale que pertence a cidade de Cuzco e os trabalhos espirituais realizados no local. Resolvi viver isso. Havia várias razões para tal, afinal, o encontro consigo é uma busca constante e alguns eventos surgem como oportunidades extemporâneas, nos convidando a creditar ou não.

DSC07056

Embarquei otimista. Queria pôr um basta em minhas dualidades. Ou era um “homem de fé” ou aceitava a condição, até então repudiada e condenada por todos do meu convívio, a de que não acreditava em tudo o que vivia ligado a religiosidade, esoterismo e etc. Coração dividido, mil perguntas na mente, viajei por 20 dias, conhecendo pontos muito interessantes a partir da cordilheira do andes, ainda na Argentina, passando pelo altiplano Argentino/Chileno/Peruano, onde há lugares em que a altitude passa dos 4.000 metros. Sofri com o sorot – mal da altitude – encontrando um pouco de adaptação apenas lá pelo 6, 7 dia, já em terras Peruanas, instalado no hotel Royal Inka, em Cuzco, próximo a praça das armas. Cuzco, por sinal, é considerado o umbigo do mundo. Um lugar bonito onde a cultura de mais de 500 anos insiste em se manter viva nas construções, hábitos, ruas e nas conversas cotidianas.

DSC07099

As paisagens são realmente de tirar o fôlego. Montanhas, vulcões pelo caminho, lugarejos, vilas, ruínas que se mantém resistentes apesar da ação corrosiva do tempo e do homem. Vários guias circulam com muitos grupos de estudo. O mundo pesquisa e visita o Peru. Europeus de toda parte, Norte Americanos, Asiáticos, principalmente os Japoneses, que parecem estarrecidos com o que veem. Certamente, o apelo turístico imposto pelo capitalismo e pela necessidade da manutenção e sobrevivência do povo Peruano, roubou um pouco do encanto místico do roteiro. Há muita coisa à venda, quinquilharias, apetrechos, lembranças, souvenirs e etc. Isso acaba interferindo nas percepções mais profundas, pois encontrar um lugar onde seja possível a contemplação sugerida pelos métodos de meditação é uma tarefa muito complicada, principalmente nos principais sítios arqueológicos como Sachsayuman, Q’enko, Machu Picchu, Ollantaytambo e outros. Pisac é uma exceção, onde com um pouco de afinco é possível estar no alto de belas montanhas, contemplando a natureza com o sentimento de ligação mais forte com o local..

Uma viagem como essa rende um livro pequeno, sem dúvida. Basta um pouco de criatividade para dissertar que logo se preenche várias páginas. Como a proposta desse espaço é a de oferecer textos mais curtos e intensos, vou me ater um pouco sobre Machu  Picchu.

DSC07287

Machu Picchu é uma das montanhas de um complexo rochoso/montanhoso, localizado no lugar chamado Águas Calientes, que pertence a Comarca de Cuzco. Chegar até lá só é possível por duas maneiras: de trem, que parte da estação de Ollantaytambo ou a pé, pela trilha Inca, que possui vários estágios. A viagem de trem é uma delícia. Paisagem incrível, veículo confortável, bom atendimento, vale a pena. A pé eu não faço ideia de como seja, só posso deduzir que seja um pouco sofrível, dado a quantidade de subidas para chegar até o alto da montanha sagrada.

Águas Calientes é um vilarejo cortada por um rio desse nome. Há centenas de comércios nas vielas do lugar. Não há carros e nem motocicletas. Os únicos veículos a motor são micro ônibus que fazem o deslocamento dos visitantes do sopé ao topo do sítio de visitação. Toda a circulação é feita a pé. Honestamente, não há muito o que fazer exceto subir as montanhas. Há também a montanha de Huayna Picchu, cuja trilha é desafiadora tanto pela sua ingrime subida, como pelos inúmeros desafios que impõem, como a altura e a proximidade pelos penhascos. Ela exige algum preparo para sua conclusão. Voltando para a montanha protagonista, ela é encantadora, de fato. O sítio é administrado pela iniciativa privada e o acesso é feito através de compra antecipada de ticket. Atualmente, a agenda exige um ano de antecipação, por isso é recomendado que se faça a viagem apoiado por uma empresa especializada ou por alguém que conheça muito bem os trâmites locais.

DSC07339

Nossa visita foi guiada por um senhor chamado Beto, um historiador local, especialista na cultura Inka e Q’êchua. Ele trazia com riqueza de detalhes, coisas que supostamente aconteceram ali. Machu Picchu foi o último reduto Inca, povo que foi extinto pela invasão espanhola. As ruínas preservadas, a limpeza do local, o gramado verde, o passeio tranquilo das simpáticas Lhamas, o tempo instável, tudo é entorpecente. Estar ali é uma experiência surreal. Imaginar como aquele povo vivia, em uma montanha muito alta, em um tempo improvável, sem tecnologias, com construções feitas de pedra bruta, cortadas com precisão cirúrgica, além de toda uma engenharia própria, até hoje muito pouca compreendida e aceita como verdadeiramente existente pelas comunidades científicas. Não há muita paz, pois o sítio é invadido diariamente por centenas de milhares de pessoas de todo o mundo, cada um motivado por razões distintas, sendo a maioria o turismo tradicional, aquele feito com máquinas fotográficas potentes, lancheiras a tira colo, gritarias, efusivas menções em vídeos recordações e etc. De toda sorte, em algum momento é possível encontrar um cantinho para uma breve reflexão, principalmente nos pontos mais altos do lugar. Em um desses momentos, seguindo a orientação de uma atividade prática do grupo, encontrei um cantinho, debaixo de chuva, com frio, envolto em bastante roupa. O lugar não permitia muita amplitude de visão, talvez tenha sido fundamental para uma melhor introspeção. Naquele instante, pensei profundamente nas razões que me levaram até lá. As coisas vividas, as intenções, as buscas, as demandas e naquele instante, nada fez sentido. Senti-me invadido por um sentimento de fraqueza, de falta de inteligência e perspicácia. Poderia eu, em qualquer lugar do mundo, próximo a minha casa, onde a natureza é também exuberante, me recolher, entrar em contato com o belo e fazer o que Nietzsche acreditava ser a ligação mais madura em uma relação adulta, que ele afirmava que o “homem gostar de estar em meio a natureza pois ela não o julga”,  e por não ser julgado, o homem que gosta de estar em meio a natureza, apenas a contempla, não a agride, não a questiona, apenas admira sua potência e sua exuberância.

Essa relação de acolhimento por parte da natureza e contemplação por parte do homem, proporciona um evento simbiótico capaz de proporcionar, em qualquer lugar, uma eclosão de sentimentos e pensamentos, que não precisam ser buscados alhures. É como uma força propulsora à cognição, à capacidade de compreender um pouco mais os mistérios da vida, que se inicia quando amadurecemos em nós, a decisão de descobrirmos quem realmente somos, o que realmente queremos, o que estamos dispostos a crer e a buscar, independentemente de cultura, formação, criação ou qualquer outro motivo. Nesse instante de ligação, de união com o mundo, entendemos que o mundo está em nós na mesma proporção que estamos no mundo e que as coisas estão onde deveriam estar, e se elas não fazem sentido, é porque não foram devidamente compreendidas ou investigadas, coisa que fazemos temporalmente sem a obrigatoriedade de investirmos em aventuras. Aprendi com isso, que toda e qualquer viagem deve ser leve, conduzida como passeio, como um presente que se dá, jamais devemos embarcar em uma viagem com o intuito de encontrarmos ao longe, o que deveríamos ter visto e percebido em nossos locais de origem.

Tudo é místico quando nos eximimos da responsabilidade de aprender e entender, assim como tudo deixa de ser uma incógnita, quando seguimos nossas vidas, percorrendo os passos de acordo com o saber, mesmo que almejemos mais, que queiramos mais, deixamos de lado a força do esotérico, a mística das coisas esotéricas não nos assaltarão o foco pela razão. Aqui ou acolá, o encontro com o mundo vai depender do quanto você é capaz de aceitar o que precisa e mudar o que é fundamental.

A partir do final de 2014, tomei uma das decisões mais difíceis da minha vida até hoje. Conclui que não é necessário carregar um rótulo doutrinário, uma disciplina religiosa para pertencermos a pleno no mundo. Embora a resistência à pessoas que negam o que o mundo defende seja muito grande e uma das principais forças segregadoras existentes, poder usar dessa ferramenta para olhar o mundo não pela janela, mas de um mirante privilegiado, onde nada se opõem ou obstrui a visão é um privilégio. Poder examinar processos e pessoas, com a frieza de quem não deve temor ao imaginário, de quem não carrega sobre os ombros, regras e leis abstratas, que cerceiam e bloqueiam avanços prodigiosos de pessoas que tem na tenência, a oposição à tenacidade de existir, trás uma sensação muito peculiar, que propicia não um prazer, um gozo, mas uma certeza: a de que o mundo é de quem melhor vive de bem consigo e todos os seus labirintos e faz da busca pelas saídas, uma gostosa jornada em direção ao verdadeiro júbilo, que é o total pertencimento.

Macchupichu

 

About author

Flavio da Luz

Itens Relacionados.

mudar-1

Em Novembro de 2012, quando ainda era voluntário ...

Leia mais.
e36d3a80169ff893eab016936f32d849

Não se esconda demais

Em Novembro de 2012, quando ainda era voluntário ...

Leia mais.
Header_lapland_konsta_aurora_hannes

A aurora da transformação.

Em Novembro de 2012, quando ainda era voluntário ...

Leia mais.

There are 0 comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *