Filosofia
A difícil tarefa de reaprender a ler.
5 de julho de 2016
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quem-somos

É bem verdade que as zonas de conteúdo livre, encabeçadas por blogs e redes sociais, trouxeram uma dinâmica condizente ao consumo de literaturas diversas, nunca antes vista na história do mundo.

Em países desenvolvidos do continente europeu, principalmente nos berçários da filosofia e da teologia, as bibliotecas, além de possuírem tamanhos generosos, eram locais de encontros, debates e de criação de muito daquilo que hoje encontramos em prateleiras de livrarias, escolas e faculdades, por exemplo. No entanto, em outras épocas, emplacar com um livro ou um conteúdo, passava pelo crivo de análises severas, críticas ferrenhas e normalmente eram lançados com co participação ou no mínimo, referências honrosas em suas epígrafes.

Hoje em dia as coisas são um tanto diferentes. Aquele que possuí uma ideia, pode, gratuitamente, participar de uma rede social qualquer, criar um blog, uma página na internet e nele publicar aquilo que bem entender, inclusive, sem o mínimo critério de responsabilidade acerca da abordagem escolhida, o que em muitos casos, torna-se exatamente o produto de maior gosto pelos ávidos leitores.

Toda  a praticidade envolvida, o alcance de um mundo de informação a disposição da ponta dos dedos, em deslocamento, em locais onde aguardar é inevitável, como em consultórios médicos por exemplo, na cama, no sofá, enquanto o filho brinca no parquinho em frente a sua casa, enfim, em todo lugar, temos um universo de conteúdos dos mais variados a nossa disposição, permitindo que demos largas a predisposições límbicas, muitas delas irracionais, desenvolvendo inabilidades racionais, incongruentes se equiparadas aos nossos propósitos mais claros de vida, que via de regra são: conhecimento, desenvolvimento intelectivo, aprimoramento emocional, fortalecimento emocional e etc.

Paralelo a esses fatores, emergem uma dezena de reflexões possíveis, das quais, optei por discorrer sobre uma delas; a nossa dificuldade em sermos isentos no tocante a análise de conteúdo. Eu explico:

Naturalmente, consumimos aquilo que nos é aprazível por conceito. Gostamos daquilo que aprendemos a gostar desde as primeiras infâncias e dificilmente oferecemos aberturas para a entrada de fatores que se misturem a esses conceitos. Temos medo de não dar conta da confusão que isso pode causar em nossas mentes. Sem nos darmos contas, até mesmo esse medo não evidente, tem a ver com a nossa negligência em aprimorar nossa qualidade de consumo, e isso passa diretamente por aquilo que lemos, assistimos, acompanhamos ou idolatramos. Normalmente, desenvolvemos gostos por coisas que nos soem com simplicidade e que não exijam de nós, nenhum esforço maior em raciocinar ou compreender, seja por preguiça ou por mera incapacidade intelectual, desprezando nossa aparente normalidade cognitiva, da qual nos orgulhamos quando prontamente identificamos um erro de arbitragem de um árbitro de futebol, ou quando temos o nosso troco devolvido aquém do correto em um comércio qualquer. Bradamos: “Não sou nenhum idiota. Tá pensando que me engana?”

Oras, a vida não se resume às nossas predileções e ainda que fosse isso, quem garantiria que a nossa própria paixão faria do mundo, um lugar de menos complexidades? As coisas não são bem assim, fato este que corrobora a ideia central desse escrito, que trata da dificuldade de espalhar coisas com qualidade, sem estar apoiadas em elementos midiáticos ou pertencer a um ou outro grupo privilegiado.

As dificuldades do mundo atual, falando em específico do Brasil, nos remeteram, involuntariamente, ao resgate da filosofia como mecanismo de compreensão e até de solução de problemáticas criadas por nossos descuidos. Hoje, professores altamente capacitados como Leandro Karnal (professor de história da Unicamp), Mário Sérgio Cortella (Filósofo e livre docente da PUC-SP), Clóvis de Barros Filhos (Filósofo e livre docente da USP), Luiz Felipe Pondé (Filósofo e ensaísta) e muitos outros que apareceram para o grande cenário, justamente por se manterem fieis a ideias de libertação, que ultrapassam séculos e que ainda não foram absorvidas e integralizadas a todas as sociedades, o que torna claro que somos, em suma, uma sociedade hipócrita, cujas matérias desenvolvidas para consolidação do bem estar e do progresso coletivo, não encontram aderência necessária nas individualidades egoístas.

Em um mundo capitalista, qualquer indicativo de adesão em massa a uma coisa qualquer, torna-se sinônimo de ganhos, pois sempre há mentes famintas por lucros dispostas a adaptar conceitos a produtos de consumo, guiando mentes enfraquecidas por estradas cheias de pedágio, cujo pagamento dá o direito a percorrê-la, sem muito mais ganho associado, ao passo que pessoas que ainda parecem presas ao tempo, citando escritores que viveram 3, 4 séculos antes de Cristo, falando de autores alemães que embasaram e alicerçaram o ensino da filosofia moderna, por exemplo, trafegam por estradas sem pavimentação, sem iluminação e invariavelmente mais longas e difíceis de percorrer, porém, com vistas e destinos que asseguram e validam a trajetória. Essa analogia traduz-se no seguinte: A facilidade continua sendo o nosso primeiro critério de escolha, principalmente quando ele diz respeito ao aprimoramento do perfil intelectual, ao passo que para isso, muitas vezes, é necessário fazer coisas que diferem e se distanciam das propostas mais modernas, que apelam para a venda de facilidades sistêmicas, mas que costumam não acrescer nada aos nossos já precários arquétipos.

Ao analisarmos o tráfego de informações e dados que transitam em redes sociais cujo o objetivo é um público jovem, que por essência e natureza estariam na fase de maior produtividade e capacidade de armazenamento, produção e desenvolvimento de ideias, fica claro que estamos distantes de orientar nossos jovens por caminhos de maior lucidez e prosperidade, embora os fatos recentes e a aparição de pessoas capacitadas, desvinculadas de meios políticos e não reféns de meios corporativos e organizacionais nos deem a esperança de que este momento, nunca antes vivido por aqui, seja comparado a uma terra que esteja sendo muito arada e que está se tornando fértil, vislumbrando um horizonte de colheita muito produtiva na seara da educação.

Precisamos, cada vez mais, impulsionar e oferecer recursos para que as pessoas busquem o conhecimento à luz da verdade e por intermédio de esforços, não que isso seja uma apologia ao sacrifício, a penúria, consolidando um pensamento mais próprio de nossos antepassados, que sugeriram que tudo na vida que realmente é bom, vem através de muita dor e luta. Se pensarmos que livros até então difíceis de serem encontrados por aqui, estão disponíveis para download em sites e aplicativos que podem ser acessados através de tecnologia de internet móvel e que podem ser consumidos durante uma viagem de avião por exemplo, já podemos refazer o conceito de conquista através do sacrifício. Encaro como necessário, darmos valor a pessoas que se comprometem a entender almas, a vasculhar mais a fundo interesses e circunstâncias, de modo a destrinchar os caminhos que possam clarear a nossa caminhada, não de modo litúrgico, regrado mas de maneira a permitir que entendamos, principalmente, as dificuldades do mundo, pois é sabido que uma vez entendido e assimilado um processo, torna-se muito mais simples a sua superação.  Podemos superar essa derrocada que tornou-se, o consumo exagerado por matérias e coisas improdutivas, revertendo essa necessidade de absorver conteúdo, por coisas engrandecedoras, que contribuam, sistematicamente, para uma evolução conjunta, conjugando prazer e saber em uma só oração.

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Flavio da Luz

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There are 2 comments

  • Israel Almeida disse:

    Acredito que esse comodismo proposto pelo mundo capitalista onde você pode ter um emprego para pagar suas contas, terminar o seu expediente de trabalho e desligar a sua mente de qualquer tipo de conhecimento profissional ou intelectual, estimula o consumo e a produção de informações excessivamente focadas em entretenimento, relacionamentos e outros assuntos superficiais que estimulam muito mais as sensações que o raciocínio. Felizmente, ainda temos muita gente remando contra essa maré, homens e mulheres que não se acomodam com o conhecimento básico, e que podem por exemplo definir sua preferência afetiva com a seguinte frase: “Nada me dá mais tesão que um cérebro.”

    • Flavio da Luz disse:

      E é um tesão extremamente produtivo. Como o Clovis de Barros diz brincando nas palestras; “O saco é um lugar ótimo pra ir a energia despendida, pois lá ela seria potencializada de maneira muito prazerosa”. O fato é que não temos referências que nos permitam optar por práticas introspectivas e não sofrermos por isso. É bem verdade que a sociedade não está pronta para todo tipo de convivência e uma pessoa que não participa ativamente de tudo que a mídia oferece, é um ser que deve-se manter distância, pois ele pode oferecer algum risco….É complicado, mas é o mundo que temos.

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