Reflexão
Os efeitos da rigidez.
9 de julho de 2016
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Os debates em torno desse tema são bem antigos. Afinal, quão rígidos precisamos ser frente a vida?  O discorrer adiante reflete apenas a forma de pensar do autor, sem nenhuma pretensão científica ou conclusiva.

Bom, primeiro precisamos definir a tal rigidez, antes de a esmiuçarmos. Rígido, pelo dicionário, significa falta de maleabilidade, flexibilidade e até austeridade. Por essa ótica, podemos dizer que rígido é o popular cabeça dura, aquele que não recua perante uma ideia sob nenhum pretexto ou alegação. Talvez até o teimoso se encaixe nesse aspecto, mas com outro viés.

Todo ser rígido, é um indivíduo disposto a uma só coisa: convencer o mundo que suas análises sobre os fatos que lhe interessam estão sob certeza da sua razão, que não permite ou aceita que nada além do que por ele pensado, a atravesse ou a contamine. No fundo, esse indivíduo é um grande medroso. Por receio de não conseguir administrar a imensa quantidade de opiniões e certezas que circulam a todo instante a sua volta, planta-se firmemente, com a solidez que julga ser a necessária para não se abalar diante de qualquer investida contra sua posição. É o retrato personificado da fraqueza travestida de sabedoria, de altivez. Mas por favor, não confunda isso com covardia.

Quando adotamos essa postura, passamos a adquirir em conjunto, uma imensa vulnerabilidade a uma série de problemas correlacionados, principalmente os de ordem psicológica, como as fixações e a tendência ao isolamento e depressão. Enfurnados nas próprias convicções, não se dão conta de que dessa maneira facilitam o afastamento de várias pessoas, as quais se indispõem a lidar com as grosserias gratuitas que costumam acontecer, além de não encontrarem um espaço para um diálogo de trocas.

A flexibilidade, por sua vez, dá ao indivíduo, uma condição única: a de transitar por diversas estâncias, captando sinais em diversas situações, que se devidamente processados, poderão ser admitidos como enxertos ao pensamento pré existente em si, como também estão suscetíveis a serem tocados por diversos pontos de partida, uma vez que a abertura ao externo, ao novo, permite que a vida lhe sopre para dentro de si, elementos de renovação, coisa que não é possível quando permanecemos fieis apenas ao que produzimos por meios orgânicos. Como diria Einstein, o famoso físico alemão do século XX: “É impossível obtermos novos resultados se continuarmos a fazer as mesmas coisas.” 

Sendo flexível, estamos agindo com a maior inteligência psicoemocional existente, pois é um indicativo claro de que é possível percorrer vários caminhos, adentrar a diversas searas, andar por inúmeras sendas, sem se poluir ou contaminar, pois quem assim age, conscientemente, sabe perfeitamente, que assim como é necessário a ingestão de um alimento para sua metabolização, é também preciso trazer para dentro um pensamento ou ideia e espremê-lo até o sumo ser algo concebível ou não. É preciso estimular as sinapses do nosso sistema cognitivo, para que ele dilua ou condense aquilo que acaba de chegar, pois muito do que ingerimos intelectualmente, irá acrescer a coisas existentes, dando volume, forma e objetivando de maneira cada vez mais cristalina o direcionamento possível. Afinal, quem nunca viajou e precisou refazer uma rota, corrigi-la por encontrar um caminho melhor ou mais bonito?

Esse debate acerca da rigidez, culmina, invariavelmente com um outro objeto intrínseco a nossa condição humana: o orgulho. Somos, via de regra, condicionados e obrigados a acertar. Desde as primeiras lições da escola, onde havia uma avaliação atribuindo nota ao esforço, sendo que a maior indicava que o trabalho havia sido mais bem feito do que quem ganhou a menor; seja mais tarde, na adolescência, onde passamos a enfrentar algumas batalhas na sociedade como paqueras, primeiro emprego, vestibulares e etc. Todos esses e muitos outros processos, vão criando em nós, o sentimento de obrigatoriedade pelo acerto e de envergonhamento pelo erro, pelo fracasso, logo, quando definitivamente adultos, precisamos estar preparados para acertar, pois também nos foi ensinado que o período de ensino e preparação acabara ao chegar da fase adulta, ou da maioridade etária, popularmente conhecida como “18 anos”. Desse ponto em diante, seguimos como se tivéssemos enchido uma sacola de saberes e eles é que nos guiarão vida a fora. Poucas pessoas nos disseram ao longo desses primeiros passos de vida, que poderíamos manter a sacola aberta até o nosso último suspiro. Menos pessoas ainda nos alertaram que seria necessário, vez ou outra, arrumar a sacola, dispensando velharias, atualizando-a, higienizando-a e até esvaziando-a, claro, até porquê, com o avançar do tempo, haverá menos vigor físico a disposição da condução de sacola cheia.

Diante das situações em que nos colocamos perante a vida, uma certeza eu carrego em minha sacola; a de que se eu quiser realmente ter sucesso e se desejar conjugar o verbo prosperar em primeira pessoa, a flexibilidade deve ser a primeira bandeira a ser fincada, seja lá onde eu estiver. Isso não significa que seremos voláteis e que mudaremos de opinião diante de qualquer uma outra, muito menos que cederemos aos caprichos das paixões efêmeras do mundo, em detrimento de nossos valores morais e éticos, tampouco aceitaremos calados adjetivos de molenga ou o vulgar bunda mole. Ceder, muitas vezes, significa avançar. Estou convencido de que as pessoas de maior sucesso que conheço, tiveram de ser muito duras e inflexíveis muitas vezes, mas chegaram lá porque não perderam tempo se digladiam com adversidades. A contornaram com malemolência, sem se evadirem das contendas necessárias, mas triunfando com suprema inteligência, que no final das contas, é sair ileso de uma batalha, mesmo enfrentando ferozes oponentes. E para que essa vitória seja possível, só mesmo uma grande consciência de si, de suas capacidades e de total conhecimento de suas certezas, para que o uso delas seja oportuno e para si e não uma ferramenta de convencimento, até mesmo porque o mundo já está cheio de certezas, tá faltando mesmo é gente que irrigue o campo das dúvidas.

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Flavio da Luz

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There are 3 comments

  • Israel Almeida disse:

    Estou convencido que o sucesso obtido por pessoas de características rígidas e inflexíveis, está diretamente ligado a uma estrutura psíquica, que desenvolve um nível de desconforto menos danoso que o da maioria das pessoas em situações de conflito. Mas é preciso lembrar que, as conquistas materiais nem sempre são compensadas pela perda de amizades sinceras e vida social bem nutrida. Me lembro de um piloto de formula 1 conhecido por sua forte personalidade que declarou: “Ultrapassa quem frear por último na curva, e por último, freio eu.” Deixar claro sua posição de rigidez em um disputa, pode intimidar os adversários menos confiantes, mas a vida não depende só de ultrapassagens corajosas, depende também de manobras delicadas e estratégias de equipe.

    • Flavio da Luz disse:

      As vezes, permitir que alguém nos ultrapasse pode ser um sinal de muita inteligência. Muitos seguem desenfreados, freando “pra lá do Deus me livre”, causando desgastes precoces em seu equipamento de correr. Já quem segue atento a todas as condições e tem um objetivo claro, saberá poupar de seu equipamento e ultrapassará novamente aquele que não mediu as consequências de apenas frear por último.

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