Filosofia
As necessárias travessias.
12 de julho de 2016
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“Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida – ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!”

O aforismo que escolhi para dar início a esse conteúdo, é um dos mais famosos proferidos pelo poeta Zaratustra, personagem eternizado pelo filósofo alemão do século XIX, Friedrich Wilhelm Nietzsche, no livro Assim Falava Zaratustra.

Trata-se de uma obra prima. Uma síntese perfeita do que se refere nossa estada nesse planeta, já que ao nascer, damos início a uma jornada singular, independentemente das pluralidades existentes.

Nietzsche sugere que não há outra opção sadia e verdadeira, de se conhecer melhor, de se relacionar bem consigo e com o mundo, se não fizermos um trabalho de construção pessoal, que passa pelos erros, acertos, perdas, derrotas, lucros, prejuízos, medos e etc. Não é possível que saibamos do que somos capazes, se não pormos em prática nossa coragem, nosso intuito. Como seríamos capazes de saber o quanto dói uma perda, se nunca passarmos pelo evento melancólico do luto, por exemplo? Que valor daríamos a um bem, se passássemos a vida inteira sendo beneficiados por presentes e doações? De que maneira agiríamos perante um dilema ou situação de conflito, se vivêssemos o marasmo de uma vida morna, sem solavancos e pressões?

É bem verdade que os constantes movimentos de reformulação do mundo e suas coisas vem trazendo à tona, a ideia Marxista de reficação, que é, em suma, a tentativa de vender qualquer coisa, e não escaparia a isso, a comercialização ou facilitação, de repassar as obrigações íntimas e pessoais, transferindo a terceiros, em forma de negociatas, processos cujas demandam imprimem exigências intransferíveis, se a analisarmos pela ótica assertiva do pensamento Nietzschiano. Parece lógico, simplório até, quando lido sob o viés do consumo literário puro e simples, mas não é. Não obstante de nossa percepção lógica, há um esforço, muitas vezes inconsciente, de fugirmos a esse método, cedendo a mente, aos caprichos e anseios das fraquezas límbicas, que via de regra, nos impulsionam para a luta, mas que frequentemente, nos convida a fugir. É sim uma luta! Uma batalha quase que constante que não tem clareza entre certo e errado, mas entre desejo e abandono, entre vontade e postergação, uma guerra conflituosa, que passa por várias filosofias, ideologias, teologias, culturas, folclores, e também pelo pior desses dilemas e dicotomias; a convicção objetivada, direcionada. Afinal, para onde queremos ir? Onde desejamos chegar?

Fatalmente, as escolhas equivocadas ou feitas apoiadas em fatores desproporcionais aos nossos intuitos, podem facilmente, nos colocar em rotas desagradáveis, que nos levarão a caminhos que exigirão de nós, o máximo esforço e concentração para recuperarmos o caminho perdido. Muitas vezes não nos damos conta de que estamos seguindo por esses caminhos tão incongruentes, despertando para essa realidade, quando nos deparamos com abismos ou buracos imensos, sozinhos e afastados de nossas principais referências, que são os nossos apoios, os nossos acessos aos recursos emergenciais de busca e salvamento. Todos nós gritamos por socorro em vários momentos da vida e precisamos ter a certeza de que seremos ouvidos e resgatados, faz parte de nosso arquétipo existencial.

A analogia adotada por Nietzsche, usando pontes para exemplificar a nossa trajetória de vida, retrata algumas coisas muito simbólicas e que podem ser aplicadas por todos nós. Pontes, normalmente, não oferecem espaços para você parar. Uma vez acessada, você precisará atravessá-la. Por mais que você olhe para trás, querendo retornar, sentindo-se inseguro com a travessia, pontes não oferecem retornos, te obrigando a concentrar-se à frente, sempre em frente. As pontes costumam oferecer visões privilegiadas, altas, donde temos uma melhor noção do que está a nossa volta, sem falar que tudo que é visto do alto, parece menor do que realmente é.

Essas analogias devem ser aludidas a tudo que consistir em dinâmicas cotidianas. Por exemplo, problemas: Se partimos para algum lugar e de onde saímos, deixamos problemas, por mais que olhemos para trás, os problemas deverão lá permanecer e precisaremos usar da travessia apenas para reunir condições de solucionar os problemas criados. Podemos também dizer, que vistos de cima, da privilegiada posição das pontes, os problemas mudam de tamanho e dimensão e dentro dessa dinâmica, a chance de vislumbrarmos soluções é potencialmente elevada, uma vez que acessado esse sentimento, sentimo-nos maiores, fortes, capazes.

A travessia, para quem quer algo mais de si, é inevitável. Deliciosamente perigosa, exponencialmente engrandecedora, esmagadoramente apequenadora e totalmente dicotômica. Podemos acreditar na esteira da vida, nessa que diz que a vida nos leva a algum lugar, não há, de fato, problema, mas sem dúvida, é uma opção diminutiva, que reduz muito as nossas chances de conhecermos um pouco mais, de fazermos um pouco mais e de sermos um pouco mais. Não em relação aos outros, mas em comparação direta com o nosso eu medroso, lá do começo da travessia, que tinha dúvidas sobre si e que agora credita suas dúvidas a processos onde sua inclusão é autômata, independente dos acontecimentos. Isso vai de encontro aos atalhos, aos semi deuses citados no aforismo do começo do texto. Existem sim, muitas maneiras, algumas sui generis, de sugerir um caminho mais curto, um abreviamento, mas desconheço um método que possa reduzir, parcialmente, processos dessa ordem. Se você optar por um deles, fatalmente vai sentir, em algum momento, que algo ficou pra trás, que algo faltou, que algo não foi devidamente realizado, causando frustração, arrependimento e o sentimento destruidor que nos fará despertar para a necessidade dolorida, de refazer, do começo e nada mais terrível que a certeza de que escolhemos conscientemente, errado alguma coisa.

Encare a sua travessia, as suas pontes. Haverão muitas a cruzar. Algumas longas, outras nem tanto, mas em todas haverá muito significado, muito aprendizado, muita oportunidade. Não te preocupes se ao iniciar essa caminhada, não enxergues com clareza o outro lado. Aproveite esse momento para fortalecer suas capacidades e a crença em si mesmo e nenhum obstáculo surpresa irá te retirar do caminho.

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Flavio da Luz

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There is 1 comment

  • Israel Almeida disse:

    “…Uma batalha quase que constante que não tem clareza entre certo e errado, mas entre desejo e abandono…”
    Esta pequena parte do texto, resume um dos pensamentos mais relevantes da obra de Nietzsche. A alusão à morte de Deus que expressa o fim dos limites impostos pelos dogmas e mentiras religiosos, nos apresenta uma falta de clareza entre o certo e o errado em função da perda do nosso referencial Paternal e divino. Esta nova realidade que potencializa as sensação de desejo e abandono, foi definida por Nietzsche como Niilismo, onde apenas alguns conseguem transpor as barreiras do pensamento e executar as necessárias travessias.

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