Filosofia
Felicidade, uma saga ou um objetivo?
26 de julho de 2016
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Saia às ruas com uma prancheta em mãos e pergunte a 100 pessoas aleatórias o seguinte: O que você deseja pra sua vida? Garanto que um alto percentual responderá “ser feliz”. É, de fato, uma resposta digna, afinal, felicidade deve ser realmente algo muito bacana, já que todo mundo quer isso pra si. Mas o que fizemos para sermos felizes? O tema é extenso e traremos em 5 edições, o nosso conceito atual sobre o assunto.

Este escritor já entendeu ou desejou a felicidade por inúmeros vieses. Aficionado por carros desde a infância, ansiava por tirar a habilitação que me autorizava a guiar pelas ruas, antes mesmo de ter ou saber se teria um carro pra chamar de meu aos 18 anos. Ter a carteira, era o ideal perfeito de felicidade, o carro que se dane, eu daria um jeito, pelo menos poderia saracotear a bordo de um possante, meu ou de quem fosse e com isso, seria suficientemente feliz. Ao ter a carteira em mãos e não ter o carro, a frustração emergiu e com ela, a necessidade de resignificar a felicidade. Não poderia aquele momento apequenador me afastar de algo que era tão perfeito em meu ideal.

Mais tarde, de posse de um veículo, senti-me melhor, alegre, contente mas não conseguia sentir aquilo que esperava que fosse acontecer, pois junto do carro, vieram os compromissos de mantê-lo em funcionamento: combustível, manutenção, taxas, impostos e etc. A felicidade realmente não estava naquele carro, logo, a transferi para um veículo mais novo, em pensamento é claro, coisa que tardou muitos anos para acontecer.

Como você deve imaginar, eu não fui infeliz nesse interim compreendido entre a aquisição do velho carro até a chegada do modelo do ano, afinal, foram longos anos como já disse. E o que eu fiz para ser feliz nesse intervalo de tempo? Tirei o foco do carro novo e resolvi aproveitar pra explorar o mundo a bordo do carro velho e com ele, descobri coisas muito bacanas. A primeira namorada de longo prazo, a primeira ida a muitos lugares, as primeiras viagens sozinho, os primeiros encontros com amigos, fazendo novos amigos, trabalho, forma de ganhar dinheiro e tudo isso foi se somando ao ideal que até então eu tinha de felicidade. O carro já não era mais objetivo dela e sim, o mecanismo, a ferramenta que me levava a viver momentos mais intensos, plenos.

Esses momentos foram muito importantes para o início de uma nova concepção racional em mim. Passei a procurar sentido em tudo que fazia, procurar uma razão existencial mais profunda e com isso, um mundo imenso de outras possibilidades passou a se abrir. Conceitos mil, ideais aos montes, situações diversas e cada vez mais, a tal felicidade vagava entre a certeza de alcança-la com a dúvida de jamais senti-la como antes. E de novo, envolvido em labirintos existenciais emoldurados pelas incertezas da vida, uma luz cintilante brilha, exatamente quando os momentos eram enfadonhos e apequenados; a felicidade é o caminho. Ela está alada, anda de mãos dadas com tudo, em tudo e independe de eventos apoteóticos, ela é a trajetória, os momentos de ascensão, a senda percorrida até um objetivo e objetivo nem sempre é um momento feliz, como por exemplo, o fim de um enterro de um parente, onde embora tudo dê certo, a sua concretização não é um ato feliz, é apenas um objetivo alcançado. A felicidade, nesse caso, é totalmente conjugada no pretérito e mesmo assim, não jaze na memória, pelo contrário, será estopim de momentos de salvação da melancolia quando o luto cessar.

Quando passamos a relativizar as circunstâncias e os acontecimentos, cada movimentação que fizemos nesse sentido desperta em nós, o vislumbre de pontos de vista até então impensados, e por mais que nos esforcemos para tentar compreender, analisar e desenhar todos os cenários possíveis de uma situação, jamais encontraremos um que crie condições de fazê-lo integralmente feliz, como também não é possível sê-lo inteiramente infeliz. Nesse caso, adentramos em um ponto crucial na discussão acerca da felicidade, que é o equilíbrio, fator necessário para a sua plenitude. Ninguém é verdadeiramente feliz no excesso como é impossível ser totalmente triste na miséria. Embora sejam dois vetores de vértices contrários, que só se encontram na ambivalência filosófica sobre os temas, é necessário um exame detalhado, profundo e isento de questões intrínsecas a um e outro, para que não determinemos, por inferência contextual, uma condição totalmente favorável a um e totalmente desfavorável a outro, sob pena de condenarmos o miserável a sucumbência existencial, como de pormos em pedestais de glória, o abastado.

Continua….

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Flavio da Luz

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There is 1 comment

  • Israel Almeida disse:

    …Embora a felicidade sempre parece ser o troféu que nos aguarda no final da caminhada, ela nada mais é que a sabedoria de aproveitar cada passo desde a largada até a chegada.

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