Filosofia
A sólida superficialidade de uma sociedade líquida
22 de agosto de 2016
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Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, criou um conceito que define os estados transitórios das relações humanas na atualidade: Sociedade Líquida. O que isso vem a ser? Nada é durável, sobrevive por muito tempo em nossas atividades, rapidamente mudamos de interesses , as empresas surgem e desaparecem em um passe de mágica, enfim, tudo acaba se consumindo de uma forma rápida, inclusive relacionamentos. Para não ficarmos presos às constatações brilhantes de Bauman, tentemos observar aspectos que nos levem a entender a genealogia dessa tendência, em um ensaio filosófico.

O que formou essa diferença de comportamento atual, diferenciando-o das tendências comportamentais do passado? O filósofo alemão, Martin Heidegger, dizia que nosso ser encontra-se em constante construção, guiado pelos fenômenos externos que venhamos a ter contato durante a vida. Sob essa linha de raciocínio, podemos inferir que os fenômenos que nos cercam, inclusive a relação de consumo atual, devem ser levados em consideração. Todos os bens de consumo, atualmente, são feitos para durar um tempo bem limitado, até meses; os vínculos empregatícios tem essa mesma volaticidade, isto é, ninguém tem mais a perspectiva de estar vinculado emocionalmente a um ambiente de trabalho ou empresa. Interessante observar que nossas relações tem aspectos de posse, isto é, trocamos relacionamentos pessoais com a mesma facilidade que nos dispomos de objetos. Um questionamento a ser feito: vemos os outros seres humanos como objetos? Creio que a resposta a ser dada é: SIM! Isso não acontecia anteriormente, sendo um fato a ser observado somente em nossa época? A resposta, para essa pergunta, já seria: NÃO! O que víamos, nas sociedades anteriores à nossa era dos “descartáveis”, era uma pressão a se manter vínculos mesmo que desagradáveis, o que não ocorre mais. Essa distorção de perspectiva ficou apenas mais clara atualmente, o que nos permite sua mudança, fazendo que procuremos entender que essa visão “coisificada” de outras pessoas precisa ser abandonada, para aperfeiçoarmos a forma de lidar corretamente com elas. Como costuma acontecer na natureza, nada apresenta somente aspectos positivos ou negativos. A liberdade de escolha é algo que não gostaríamos de ver revogada, o que deveríamos nos atentar é que somente o prazer, e a possibilidade de uma ação de troca, não devem ser os parâmetros únicos a serem levados em consideração em um ato a ser cometido.  Existe uma enorme imaturidade emocional ao ficarmos ao sabor dos ventos de nossos desejos. Uma era de transição encontra-se à nossa frente, onde temos perspectivas mais ricas do que a que vivemos até hoje, só que, para isso, nos cabe ter um pouco mais de paciência e reflexão em nosso agir cotidiano. Nada de regras rígidas, autoritárias e impositivas, isso seria um retrocesso lamentável! Porém, não cabe atitudes impulsivas, frutos de pura ansiedade por se atingir o maior prazer possível. Foi importante a sociedade ter se “liquefeito”, porém, ao invés de diques artificialmente colocados para dar um aspecto sólido ao nosso volume interno, cabe, a cada um de nós, fazer fluir um volume maior de possibilidades, enriquecendo o oceano comum da vida que usufruímos juntos.

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Robespierre Menezes

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There are 2 comments

  • Erik Almeida disse:

    Seria a sociedade incapaz de uma mudança generalizada em direção ao conforto da maioria?
    parabéns pelo texto.

  • Israel Almeida disse:

    Grande reflexão! A Liberdade de escolha e a imaturidade emocional que nos deixa ao sabor dos ventos de nossos desejos!

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