Cotidiano Filosofia Reflexão
Sobra ampulheta, falta areia…
1 de setembro de 2016
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Imagine que a cada compromisso seu, você levará consigo, imaginariamente, uma ampulheta. Imagine também, que você dividirá o seu dia em 10 etapas ou 10 compromissos. Não há entre eles, nenhuma relação direta, o que te permite atribuir a um e a outro, o tempo que julgar necessário para cada um deles. Visualize que junto do estojo que carrega sua ampulheta, há um recipiente que transporta a areia utilizada por ela e que lhe é possível, a cada compromisso, utilizar uma determinada quantia e que a quantia utilizada ou consumida pelo tempo da atividade, não retornará à embalagem, enquanto a que permaneceu no equipamento é cumulativa.

A vida moderna tem nos incitado a viver cada vez menos as coisas que nos são verdadeiramente importantes e nem é preciso a discussão acerca de filosofias de vida para entabularmos valores reais a isso. É discussão comum, em vários ambientes, a chorosa falta de tempo para ser feliz. O que mais se ouve nos ambientes de trabalho, onde comungamos de interesses íntimos com um coletivo não menos necessitado, é que trabalhar tem exigido demais.

Diariamente vemos programas de TV e pela própria internet, matérias feitas com pessoas que optaram por abandonar suas carreiras, seus empregos ditos estáveis, para se lançarem em labuta solitária, alegando que o ganho de tempo resulta em qualidade de vida.

Mas antes de prosseguir com essa divagação, deixa eu acrescentar um elemento para esse raciocínio: Voltando ao primeiro parágrafo, onde estabelecemos as questões acerca da ampulheta e seus anteparos, imagine que a origem da areia usada na sua ferramenta marcadora de tempo, é parca e não renovável.

Mário Sérgio Cortella nos lembra sempre que falta de tempo é sinônimo de critério de prioridades, que quer dizer algo muito simples: Para aquilo que temos interesse, arrumamos tempo e disposição, já para o que não nos soa prioritário ou é enfadonho, postergamos e evitamos. Essa curiosa maneira de conduzir a vida reflete algo muito triste em nós, humanos, que é a nossa péssima capacidade de administrarmos nossa própria vida, ainda que estejamos falando das coisas que nos produzam ganhos, alegrias e benesses.

Sobrepujamos nossas fronteiras resistivas, desrespeitando nossos limites de tolerância e de flexibilidade, para após perceber o estrago feito, voltarmo-nos, parcimoniosamente em nosso favor, para atentar, zelar e cuidar, dada a necessidade de repararmos os estragos que causamos a nós mesmos, por termos usado o tempo de maneira perniciosa e não lucrativa.

Adquirimos, por força da indução que parte do meio em que vivemos, uma tendência perigosa a hipotecarmo-nos em troco de fatores materiais, lançando mão da delícia de existir plenamente. Nos perdemos entre promessas, ambições, conceitos, preceitos, valores, ideais, politizações, discussões, ganâncias e misérias e não conseguimos admitir a ideia de que não somos senhores do tempo que corre, a despeito da areia transpassar o vértice da ampulheta….O tempo é implacável e chamá-lo de indolente, é desprezar a capacidade dele nos ferir, só com o seu passar. Ao contrário do vento de Fernando Pessoa, que só de passar, justifica e recompensa a existência, a passagem do tempo tem nos feito doentes, senis e macambúzios.

A imensidão de recursos disponíveis hoje parece nos sufocar, quando na verdade deveriam servir de plataformas de impulso e de projeção a outras esferas mais aprazíveis. Colocamos em xeque nossa ousadia e nossa coragem e nos acovardamos frente às passagens apressadas do relógio. Não conseguimos frear o tic-tac da ansiedade, que sabota a nossa razão, revertendo nossa lógica em detrimento da nossa própria saúde, mental, psicológica e física. Conseguimos acalmar alguém com um abraço e entregar-lhe uma palavra de alívio, mas não conseguimos calar nossas inquietas neuroses e estancar a esteira incessante dos dias que passam apressados.

Um pôr do sol, uma atenção especial ao sabor da comida que levamos até a boca, a observação de nossa sinapses processando o que nos acontece em tempo real, como a avaliação dos nossos sentimentos, da nossa curva de humor. O nosso estado psicoemocional, que é carente de cuidados específicos, de lapidação constante, de reparos.

Para concluir, reparem que os compromissos sugeridos no primeiro parágrafo, podem ser todos referente a auto cuidado, mas certamente você logo pensou na sua rotina de trabalho, casa, filhos e etc. Estou certo que se você elencou mesmo 10 tarefas, a maioria delas era composta por coisas que você não desejaria fazer, não é?

Cuidar de si é a principal tarefa que temos em nossas vidas. Precisamos estabelecer meios para fazê-lo, de modo que o prazer e o bem estar estejam sempre a frente de toda e qualquer circunstância. Para isso, somos únicos possuidores de uma complexa gama de dispositivos e aparatos, de várias ordens, aplicados a inúmeros fatores, cabe-nos equalizar tudo isso e talvez daí surja a ideia de que a matemática nos é tão necessária para vivermos bem. Devo admitir que sem apoios e soltos no mundo, teremos muitas dificuldades de fazê-lo, mas com humildade e uma boa gestão íntima, nos será possível regozijar muito mais do que praguejar.

Ah, eu ia esquecendo. Sobre a origem a areia, ela realmente não é renovável. A cada punhado utilizado, por mais que acumulemos visando o uso futuro, ela perderá as propriedades. A areia, são as oportunidades que temos. Por mais que tenhamos muitos outros dias pela frente, jamais a mesma oportunidade será repetida e se as próximas serão melhores ou piores, isso dependerá da qualidade das que você construirá a partir de agora.

 

Tic-tac; tic-tac….

 

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Flavio da Luz

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There are 3 comments

  • Maria Isabel disse:

    O tempo como aliado ou inimigo?
    Devemos usarmos nossa percepção de tempo mas também de espaço nas horas sim de decisões difíceis a serem tomadas. Tentar ludibriar o tempo pode ser um grande manejo para nos levar rapidamente ao caos. Então que possamos lidar com o tempo de cada dia construindo o que temos condições de construir naquele ou neste dia. Colaborando com o tempo e deixando fluir a vida pois é sabido que a cada dia basta o seu mal.
    Adorei seu ponto de alerta diante do tempo que nos é dado é que saibamos usá-lo a nosso favor sempre.

  • Israel Almeida disse:

    Meu maior desafio, controlar a ansiedade e aproveitar cada momento da caminhada rumo a qualquer objetivo! Escolher as ampulhetas e acompanhar o cair da areia até o final.

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