Atualidade Filosofia Religião
O desencontro com a paz em meio a ela.
20 de setembro de 2016
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A morte recente do ator brasileiro, Domingos Montagner, trouxe à tona uma quantidade muito significativa de fatores analíticos em relação a humanidade, suas crenças e valores.

Como sabido por todos, tal ator faleceu enquanto mergulhava no lugar chamado Canindé do São Francisco, em Sergipe. Era uma tarde de folga das gravações da novela em que era protagonista, a Velho Chico, folhetim do horário nobre da Rede Globo de Televisão.

A repercussão do ocorrido atingiu todas as camadas da sociedade e numa escala proporcional ao seu talento e a visibilidade que a ocupação lhe proporcionava, causando comoção pública e generalizada. Afinal, um artista adentra diversas casas, todos os dias, misturando o virtual da profissão à realidade dos lares e famílias brasileiras, que ainda se apoiam no lúdico comercial para ajudar a organizar pensamentos e ações, além de usaram como baldrame filosófico para a vida como um todo e esta é uma realidade que ainda preocupa e entristece, principalmente as massas mais intelectualizadas.

Sobre o aspecto morte, pode-se elencar algumas situações muito peculiares e que definem, através do senso comum, algumas condições já enraizadas nas culturas religiosas e filosóficas e é sobre isso que pretendo discorrer um pouco a seguir.

Tão logo confirmou-se o ocorrido, as redes sociais foram invadidas por enxurradas de discursos opinativos, que tentavam justificar o ato trágico. Quanto a isso, a opinião deste escritor, é a de que todas não passam de mera invasão e agressão à intimidade que o momento exige, principalmente aos familiares e amigos diretos da vítima. Dai surge a primeira grande confusão, a de que fã, por adorar e idolatrar, adquiri o direito de intervir, participar, opinar e se intrometer a bel prazer, na vida do ídolo, o que não pode ser admitido como verdade jamais.

Não obstante do exercício da liberdade de expressão, valor cívico usado para justificar as manifestações, surgiram os religiosos ou pseudo religiosos, apresentando suas versões, carregadas de lógicas próprias para o fato.

Os católicos admitiam que ele havia sido chamado por Deus, por ser bom e que segundo a premissa Cristã, ele havia cumprido sua jornada por aqui, vencendo o seu prazo.

Os evangélicos, de modo geral, afirmavam que o fato era uma punição, pelo fato de a rede Globo não respeitar a natureza, o povo, a religião, as crenças, as divindades e estarem em local sagrado.

Os espíritas apostavam em missão, como nas fábulas do cinema, onde a despeito do vigor físico e da capacidade de ir além, uma força maior surge para interromper a vida, no intuito de fazer cumprir leis naturais.

Os índios, por sua vez, que ocupam aquela região, acreditam, assim como os espíritas, que a morte dessa vida, naquele rio, naquele lugar, serviu como um portal para o início de uma nova vida, em outro lugar, melhor aqui, totalmente renovada.

Além disso, inúmeros relatos, discursos e manifestações pessoais, davam um tom assertivo quanto ao evento e em sua maioria, eram contrapontos, dicotomias acerca do binômio vida/morte, sem nenhuma conclusão aparentemente válida, apenas teorias que se duelavam no intuito de arrebanhar maior número de afins e adeptos desta ou daquela versão. Esse ato, por si, denota grande desrespeito ao fator morte, que independente da crença religiosa, é motivo de dor e sofrimento para familiares e amigos próximos e íntimos, que precisam viver o luto para iniciar um processo de aceitação e recomeço de jornada, ajustando os passos, organizando as rotinas e reaprendendo a viver sem um dos seus pilares.

Observa-se uma grande e ferrenha contenda armada entre aqueles que se valem da crença para obter uma vida melhor e mais digna. No entanto, o que se pode afirmar é que justamente pela cegueira que a crença estabelece, tornam-se, os seguidores de doutrinas diversas, justiceiros e defensores ideológicos, com o intuito de fazer valer a sua fé a todo custo, impondo, ainda que seja à força e as custas de agressões morais e até físicas, a sua razão.

Temos um campeonato muito disputado de certezas e destinos. Temos pessoas fiéis às suas crenças, marcas, empresas, pastores, líderes mas não temos pessoas vivendo nada do que acreditam ser a fonte da boa vida. Temos disputa antagonizando ao acolhimento; temos guerras contrastando com a paz teórica; temos divisões contrariando a pregação da união.

Onde está o erro? Por que tem-se tanta dificuldade em admitir as diferenças e operacionalizar a fé em detrimento da miséria, do desarranjo ideológico? Em tese, deveriam os seguidores religiosos, cooperarem, em favor de si e de seus companheiros de jornada, para que a discriminação e a segregação da fé não fosse mais um objeto de batalhas. Disso nós já estamos fartos. O que não falta no mundo são pessoas lutando por motivos banais, torpes e é nesse ponto que apoio a minha esperança de que os praticantes de religiões diversas, fizessem uso do material que consomem, em favor da pacificação, inicialmente entre as diferentes opções do setor e posteriormente, transferindo bons valores a uma sociedade carente de motivos e direcionamentos para seguir por melhores caminhos. Não espera-se, jamais, que um religioso seja o maior exemplo ou que ele não esteja submetido aos percalços humanistas, mas anseia-se que por ele ter acesso a ditames que visam a pacificidade e a ordem, diante de uma situação extrema, ele tenha no que se apoiar para decidir pela melhor opção, que é sempre o acordo. Jean-Paul Sartre, filósofo francês do século XX, afirmou que “a violência, seja qual for a forma como se manifesta, é sempre uma derrota.”

Diante de tantas barbáries , ter o sentimento de que a religião, que é um instrumento de manuseio e orientação de massas, venha a ser mais uma plataforma beligerante, enche o peito de angústia e causa ainda mais pavor e receio pela qualidade de vida futura.

Se nem mesmo diante de desastres como as mortes trágicas, inoportunas, fora de hora, os adeptos conseguem imprimir um voto de santificação e apenas manifestar condolências, sem tentar imprimir a força, a sua crença a respeito da morte, o que esperar de sistemas tão fortes?

O adensamento de posturas descombinadas, incoerentes entre si, mas que em dado momento de suas retóricas, vislumbram um mesmo radical, um mesmo ponto comum, precisa encontrar desde o início de suas dialéticas, propostas mais racionalizadas e distantes do universo lúdico ainda conservado pelas principais lideranças. Precisamos fazer melhor uso de ferramentas pacificadoras, a fim de erradicarmos, passo a passo, a frenética ascensão da subversão, o desajustado crescimento do radicalismo ideológico, a fim de frearmos os avanços desajustados das rotinas do mal, aquelas que aos poucos, disfarçadas de reparos, apresentam-se como soluções. Não é o ser humano que precisa ser erradicado. O que precisa ser feito, é tirar de dentro de cada um, a centelha do ódio, a mácula das dores e sobretudo, o germe pernicioso da diferença e da falta de aceitação.

Que sirvam, todas as religiões e doutrinas, de cálices para a comunhão dos povos, das raças e que permitam que cada vez mais, seres humanos se abracem, se comovendo com a dor alheia e respeitando, cada qual, o destino que a sorte ou a crença lhe oferecem. #maisamorporfavor

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Flavio da Luz

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There are 2 comments

  • Israel Almeida disse:

    A busca sensata por respostas de fenômenos da fé pode trazer reflexões interessantes até mesmo ao ateu mais sético. Mas os mitos religiosos e crendices espiritualistas, só potencializam a ignorância de quem explora casos como esse com absoluta insensatez!
    Parabéns Flávio, mais uma super reflexão!!!

  • Cida Ribeiro disse:

    Excelente sua ponderação, Flávio da Luz, considerando tratar-se de um tema polêmico, em que as opiniões se divergem. O fato é que toda batalha entre religiões é gerada por algum tipo de fanatismo e tudo depende de como cada um se relaciona com seus próprios pensamentos. Esses conflitos envolvem outro aspecto, as pessoas caem no erro de serem religiosas, sendo ignorantes o suficiente para acreditar que somente as regras aceitas pela religião estão corretas, excluindo, julgando e sendo injustas com qualquer um fora disso, e seguir regras dadas por homens religiosos não faz de ninguém perfeito, coisas contrárias ao que a religião deveria propagar. Essa contradição continuará até que todos os corações sejam curados. Não sigo religiões. Eu aposto mais no princípio básico de que o amor faz com que nos tornemos pessoas melhores e o princípio básico da religião sempre foi dividir aqueles que aceitam as regras impostas e os que não aceitam. Se não fosse isso, não teríamos tantas religiões por ai, a cada esquina. A religião, de certa forma, divide as pessoas em vez de unir. E isso é inaceitável.

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