Reflexão Relacionamento
A disformidade nas relações.
17 de março de 2017
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É, o mundo continua o mesmo, mas as pessoas…Quantas diferenças! Será?

Quando analisamos o mundo e suas coisas, o fazemos com base nos registros atuais, em tempo presente, ainda que estejamos julgando ou analisando uma situação pretérita. A base do juízo é o agora e se dá pela atualização mais recente de nosso arquétipo, que por sua vez, a medida que envelhecemos, é ampliado, reformado e retrabalhado.

Sendo assim e dado os princípios básicos de evolução pessoal, os quais compreendem um aprimoramento nos campos psicológico e emocional, substancialmente, o que vimos hoje jamais será o mesmo que vimos tempos atrás, ainda que personagens, enredos e cenários se repitam. E nessa seara, um fator é determinante para nossas decisões; a quantidade de sentimento vinculado aos fatos.

O mundo vive a base de relações. Tudo está de alguma maneira interligado. Seja na natureza primitiva, seja nos campos da afetividade, comerciais, profissionais e etc. E essas relações só acontecem mediante certa estabilidade, certa conformidade e flexibilidade de interesses comuns, caso contrário, colapsos são iminentes. Desta maneira, podemos pensar a futilidade com que é tratada as relações de hoje.

No caso das relações íntimas, afetivas e interpessoais, uma série de fatores contribuíram e continuam a contribuir para as mudanças tão gritantes que se apresentam hoje em dia, muitas delas dizem respeito a busca pela igualdade de direitos entre os gêneros, com maior carga atribuída às mulheres. No aspecto conjugal, até dias recentes, a mulher tinha uma condição um tanto escravizadora nestas relações, sendo submetida aos cuidados com o lar, com a criação e educação dos filhos e imposta a uma determinada submissão ao homem, que na figura do patriarca, era incumbido apenas dos cuidados financeiros. A desconstrução desse sistema horroroso vem reformando toda uma conjuntura extensa de processos sociais, que passa pela dignificação do indivíduo, independentemente de sua classificação quanto ao gênero, bem como toda uma readaptação, morosa e para muitos, dolorosa, quanto a padrões culturais. Afinal, para pessoas cuja data de nascimento aponta para meados do século XX, coisas do tipo “homossexualidade” são vistas como tabus, recheados de reprimendas e condenações, das civis à esotéricas.

Diante deste cenário de buscas e de reencontros com o “seu lugar no mundo”,  o indivíduo que até então via-se engaiolado em uma jaula de apontamentos e recriminações, vê-se agora, dotado de larga capacidade de alçar voos cada vez mais altos. O espaço que tem sido conquistado para a livre manifestação de opiniões e justificativas quanto ao estilo de vida adotado, tem criado precedentes volumosos no campo da liberdade, permitindo a cada um de nós, sendo de que gênero for, lançar mão de culturas para criar as próprias. Talvez estejamos vivendo uma era de puro hedonismo, onde a intensa busca pelo prazer e pela satisfação a cada gesto, a cada ato, esteja acima de qualquer segmento religioso, folclórico, cultural ou mesmo social. Em suma, o indivíduo é cada vez mais uno.

Somos hoje, cerca de 7 bilhões de seres terrenos, uns com características extra terrenas, é verdade. Assim como a amplidão das indústrias e o fomento imparável das produções em larga escala, erroneamente, somos, seres humanos, comparados a produtos e dada a extensa oferta deste, a dificuldade em encontrar elementos que nos convençam a perpetuar uma relação com apenas um, encarando de frente as dificuldades que o convívio nos submete é cada vez maior. Promessas mil são lançadas a todo instante. Subtipos, subgêneros, diversidade, variedade, qualidades salientes, predicados aos montes, vícios e defeitos cada vez mais escondidos atrás da superficialidade vitrinal, ou seja, me refiro a este outro fenômeno moderno/contemporâneo que é a promíscua exposição em redes de computadores, junto da derrubada das questões morais e éticas, ditadas, em boa parte, por religiões, que antes condenavam o indivíduo ao mármore ultra aquecido dos departamentos punitivos dos céus, mas que hoje são confundidos com o marasmo matrimonial e com a insatisfação momentânea, cabendo ao ser, a dissolução a seu modo de tal situação, sob pena de arrastar para outra promessa, a eternidade, o sentimento de infelicidade que deveria ter sido combatido, a despeito da dor causada a outrem. É a fortificação do salve-se quem puder.

Cada vez mais distanciamo-nos das arcaicas tábuas regimentais das relações. Não somos mais obrigados pelos pais a nos casar com quem eles escolhem. Não somos mais obrigado a aturar violações aos nossos direitos humanos – viva a ONU -, não devemos mais aceitar o açoite das violências físicas e psicológicas; não temos mais o compromisso com a ilibação da moral, que antes, supostamente, ostentava com orgulho, a façanha de manter-se firme aos intemperes caóticos da união entre duas pessoas. Gradativamente, vamos nos distanciando das apelações que punham em cheque nossa permanência ao meio, como por exemplo, a difamação por um adultério, que antes era desonra e hoje é visto como um ato libertário, uma circunstância inevitável.

Tenho a impressão de que as lutas de hoje, são muito, radicalmente eu diria, opostas ao que se viveu. Devo eu salientar que nem tudo foi ruim no passado. Sei que a leitura até aqui talvez tenha sugerido essa ideia, mas também foi enfrentando muitas dificuldades que viu-se nascer e renascer, seres resilientes, fortes, resistentes, perseverantes e que devido a esse conjunto de qualidades cada vez mais rara, tornaram-se expoentes da luta diária, seja isso no âmbito familiar ou multi social. A afirmação que quero fazer é no sentido da luta pelo desdem, pela desimportância mútua. Parece haver uma batalha, uma luta feroz entre duas pessoas que se desejam, que se atraem, mas que para seguir uma tendência atual, precisam mostrar o quanto são capazes de desprezar, de viver sem, de se afastar. Qual o preço a se pagar por esse esforço, que na minha opinião é inútil? É válido, abrir mão de viver um instante que seja, de completo êxtase, um momento onde a felicidade plena parece existir a troco de provar sua completa adaptação ao modernismo? Teria toda evolução um lugar cativo em nossas vidas? Tudo que é intitulado moda, inovação, atualidade tem espaço na titularidade de suas decisões? Quem é você nessa terra de ninguém?

O aforismo 153 do livro Para além do bem e do mal, do filósofo alemão Friedrich W. Nietzsche diz que: “Aquilo que se faz por amor, sempre se faz acima do bem e do mal.” Esse raciocínio nos traz a clara ideia de que, aquele que se atrever ou pretender viver algo que lhe chacoalhe as estruturas, que lhe faça sofregar, que lhe ponha em ofegação vide uma memória, uma lembrança pulsante, precisará abrir mão de muito do que carrega em si, quanto a posturas e condutas, salvaguardando-se é claro, de ilícitos que desabonem por completo seus delírios de amor.

E talvez seja isso o bastante para o desfecho parcial desse tema. Estou cada vez mais convicto de não falta amor no mundo. Falta amar. Não é escassa a carência em seres, é, por sua vez, relutante a iniciativa de abraçar e acolher. De tudo que tenha mudado nesse planeta, uma coisa está em condição estanque, provocando, assim como tudo que nasceu para se movimentar e permanece imóvel, tamanho desconforto em toda a população, que é o poder de transformar a vida mediante as circunstâncias e demandas de momento e não por apelos coletivos ou comerciais.

Que sejamos bravos nessa queda de braço contra as imposições oportunistas, que diante qualquer fraquejo nosso, surge como soluções mágicas. Que possamos nos manter altivos e relutantes contra tudo que não nos traga bem estar. Que permaneçamos fortes nas lutas pelas igualdades e por melhores condições de vida, sem jamais perder o tino do bom senso que delimita com clareza, a relação entre o bem e o mal. E que na falta de uma inovação, ao enfrentar um sentimento de vazio, recorramos às boas e velhas práticas de vida, trazidas, implantadas e aprovadas por nossos antepassados, ou seja, apenas amemos uns aos outros.

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Flavio da Luz

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There are 2 comments

  • Israel Almeida disse:

    Cultivar a sensação de segurança dos velhos relacionamentos carregados de compromissos e deveres ou pagar o preço da própria liberdade? Aí está a melhor reposta: “Jamais perder o tino do bom senso que delimita com clareza a relação entre o bem e o mal”.

    • Flavio da Luz disse:

      Bacana sua observação, Israel. Imagino que a têmpera e o equilíbrio, serão, a despeito de toa mudança e evolução que ocorra no mundo, a essência para a manutenção da harmonia nas relações. Precisamos agir com cautela e cuidado, sempre que envolvermos, e isso ocorre intermitentemente, outrem.

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