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Respeitando o passado consolida-se o futuro
22 de março de 2017
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Creio que vivamos uma era improvável, até mesmo para os grandes pensadores, cientistas e inventores de séculos atrás. Talvez, nem mesmo os mais otimistas e sonhadores, pudessem ter vislumbrado tamanhas formas de interlocução e comunicação entre as pessoas. Ainda que tivessem avistado essas possibilidades, é provável que não imaginassem que falaríamos com outras pessoas, de outros países, em outros idiomas, em tempo real, com tradução simultânea, com voz, imagem e etc.

Essa interligação tamanha, tem gerado efeitos brutais em nossas relações intrapessoais. Nos sentimos mais sozinhos hoje do que quando tínhamos apenas 4 amigos e todos moravam na mesma rua. Os incríveis recursos tecnológicos que a modernidade trouxeram, nos afastaram das ruas e nos impuseram rotinas de imenso vazio existencial, afinal, temos todos os lugares e pessoas do mundo ao alcance dos dedos, mas não temos um ouvido e um ombro para compartilhar nossas angústias reais.

O advento da fusão entre a vida real com a projeção da virtual, foi, aos poucos, moldando a maneira como devemos nos comportar nesse ambiente novo e moderno, afinal, ele é uma vitrine, perfeitamente configurável, onde nos é permitido revelar apenas o melhor de nós, que muitas vezes não passa da falsa ideia que temos acerca de nós mesmos. A nossa projeção, o nosso protótipo de felicidade, idealizado as custas da adesão a novidades e imposições comerciais principalmente. Talvez tenhamos nos deixado levar por um sentimento que tornou-se pernicioso para um todo, que é a ideia de sepultamento das velhas práticas em nome e favor, de novas tecnologias. Tratamos o tempo presente com um chavão que tem forte tom pejorativo, dizendo; “Mas isso em dias de hoje!” Como se o fato de estarmos aqui, nesta data, neste tempo, nos chancelasse a insígnia de superiores, de melhores, de avançados. Não é bem assim.

Em nome da adesão às tecnologias e modernidades, fomos, talvez inconscientemente, abrindo mão de pessoalismos, nos deixando levar por imposições midiáticas e comerciais. Sabemos que em toda história sempre hoje a preguiça como fator determinante para o estancamento social, vide a postura de muitos, que esperam alguém fazer ou inventar para então apenas usufruir e criticar. Não a toa, ao olharmos para trás, contabiliza-se um bom número de pessoas de destaque, seja pelos feitos intelectuais, pelas invenções ou pelo envolvimento social, mas o fato é que se pormos na mesma equação, o número de pessoas que já passaram por esse planeta, o percentual de pessoas notáveis é ridículo frente a capacidade individual do ser humano. Ou isso é um engodo, um embuste no qual acreditamos para fortalecer nossa própria auto estima e nos esquivarmos da mediocridade existencial, que parece ser, assombrosamente, a maior parcela na humanidade? Einstein, físico alemão, robustecia a teoria da altivez humana, afirmando que “todos somos geniais”, respeitando o “quadrado” de cada um.

Um ponto importante nessa discussão sobre a forma como nos comportamos socialmente hoje, diz respeito a valores morais e éticos como a honra, a sensatez, o equilíbrio e a transparência. Durante muito tempo, a discrição na conduta social é quem determinava o bom julgamento a um cidadão. Quanto menos dele e sobre ele ouvia-se falar, fatalmente sua vida seria a mais ilibada e que mereceria maiores oportunidades. Na atualidade, tenho a impressão de que isso realmente não é mais válido.

O cidadão dito moderno e atual, precisa, a despeito de seu conhecimento, sua postura, sua envergadura moral, cívica e ética, mostrar-se e parecer-se assim, de modo que, sob pena de ser aprisionado e enclausurado na masmorra do anonimato, necessita transgredir a si e seus valores, para mostrar-se vivo e presente. É como o INSS chama de “prova de vida”, que faz-se necessário a visita do aposentado ou pensionista, nas dependências do órgão mais próximo, para justificar que ainda está vivo e por isso, deve e pode continuar recebendo seu benefício. Já o benefício para quem quer viver melhor na sociedade moderna é isso, uma prova de vida diária, seja participando ativamente de redes sociais, seja usando gírias, assistindo a seriados, filmes, séries e programas de entretenimento, cuja qualidade e magnitude são ditadas por jovens descompromissados com a história, por exemplo ou seja simplesmente, obtendo sucesso em sua atividade comercial/remunerada e exibindo os objetos de seu sucesso para que todos o admirem ainda mais. Afinal, continuamos necessitados e carentes de heróis.

Mas de toda sorte, o fator “rede social” acaba não sendo o que mais nos prejudica, a meu ver. Acredito que vivemos sob o castigo da premiação pela desfaçatez, pela canalhice e pela dissimulação. Nunca antes fomos tão teatrais. Jamais tivemos a oportunidade de figurar personagens diversos e assim obter vantagens disso. Alcançamos uma invejável condição, pelo menos para os baldrames da filosofia ética, que é o de dissuadir, perverter e subverter todo e qualquer aparato da honra e da dignidade. Conferimos direito e salvaguarda, a todo aquele que, reconhecidamente, afasta-se das sendas que indicam ou que levam a caminhos mais nobres. Vivemos em meio a total efemeridade, de tudo. De relações, de empregos, de valores, de conceitos, de pensamentos, de ideias, de amizades, de lares….De coisas então, nem vou me estender para não ficar enfadonho. Substituímos, lesivamente, valores por preços, etiquetando interesse nas pessoas e atribuímos valores, como apego e estima, à objetos. E o pior; a fala a respeito disso, vide a massiva investida de vários meios  interligados, que se valem e muito se beneficiam dessas mudanças, está se tornando cansativa, maçante, extenuante. Falar em paralelos, fazendo comparações entre antes e depois, é fora de moda, é antiquado e já está se tornando desnecessário.

O grande apelo filosófico da era atual, é o de trazer de volta, corações e mentes para uma união estável entre si. Rebuscar alguns sentidos intrínsecos ao ser humano e torná-lo ainda mais capaz de apenas usar os recursos que estão cada vez mais disponíveis e amar as pessoas que, por um período de torpor, tornaram-se dependente dessas coisas, esquecendo-se de suas virtudes e predicados mais sensíveis e sustentáveis.

Embora cercados de robôs, máquinas, aparatos eletrônicos e elétricos continuamos a sermos humanos e tão somente isso. Estamos avançando limites até então impostos e taxados como finitos. Estamos conhecendo novos lugares, novas oportunidades, desenvolvendo habilidades até então adormecidas, mas continuamos a viver em um corpo cuja orgânica demanda e exige muito mais cuidado do que em qualquer outro tempo. A cada passo dado na direção de uma nova tecnologia, regredimos e/ou causamos algum efeito colateral em nossa natureza ou em nosso habitat. Já não respiramos, principalmente nas grandes cidades, o mesmo ar de outrora. Já não nos alimentamos com a mesma qualidade de 40, 50 anos atrás. As chuvas que antes, mesmo longas e volumosas, não causavam tantos danos como hoje. Precisamos despertar para essa necessidade, de voltarmos a nos abraçar e fazer disso um ato de cura. Precisamos admitir que há muita sabedoria em nossos antepassados e que embora não houvesse para eles, internet, por exemplo, havia muito conhecimento e este, por sua vez, fora adquirido de uma maneira que tem se tornado arcaica e desusual, que é a prática em si. O manufaturamento dos fatos. A comprovação inconteste de conclusões obtidas através não de produção de provas, mas de constatações apuradas.

Se eu pudesse deixar um alerta, seria esse; não massacrar o passado. Viemos de lá! Somos frutos de tudo o que nos ocorreu e o que se passou com nossos pais e mães. Pelo sim e pelo não, chegamos aqui e você, assim como eu, quando olha para trás, percebe que os seus melhores dias ou que os momentos mais felizes e marcantes, possivelmente, foram vividos em tempos onde tudo era diferente. Isso não é saudosismo e nem melancolia literária, é um fato. Renegar ou se afastar abruptamente do passado, é refutar a própria história, é abandonar o conhecimento mais profundo de si, pois todo grande aprendizado que nos acompanha hoje, é fruto de um fato, de um momento, de um evento, traumático ou simplesmente marcante, que fora vivido em tempos atrás. Logicamente, a vida futura é e sempre será uma imensa incógnita, mais ou menos ansiada por uns e por outros. Jamais viveremos o futuro. O máximo que podemos fazer é isso que fazemos hoje, penso eu, que é acreditar que o futuro será aquilo que querem nos vender hoje e nada mais.

O que você quer ser quando o futuro chegar? Um elo perdido a espera do desaparecimento ou uma peça fundamental no auxílio a compreensão de que como ele fora construído? Eu não sei você, mas quando o meu futuro chegar, eu quero ser mais humano do que sou hoje.

 

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Flavio da Luz

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