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O perdão; uma ferramenta ou um gesto de amor?
24 de março de 2017
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As mais diversas teorias e doutrinas, religiosas ou meramente esotéricas, atribuem ao perdão, o principal movimento na direção do crescimento pessoal, seja na vida de quem for. Mas afinal, todos nós realmente perdoamos ou apenas o utilizamos para justificar um novo interesse?

Recai sobre esse ato, uma áurea quase que celestial, púrpura, num termo do século passado, já que acerca do perdão, muitas coisas estão envolvidas e entrelaçadas, como por exemplo, a cessão de uma ideia, de um conceito ou até mesmo, a renúncia de alguns sentimentos e pensamentos que ruminam a mente e o coração de que vive em união sútil contra quem à ele desferiu um golpe maculado, uma vez que para existir perdão, é necessário que haja um grave acontecimento, envolvendo ao menos duas pessoas, seja um desentendimento, uma agressão ou qualquer outro ato perturbador.

São muitos os pontos existentes que possam ser o suficiente para ferir alguém, ao ponto disso determinar um processo tão profundo, como o perdão. Devemos começar raciocinando o porque nos sentimos perturbados ou agredidos, já que, em caso de ofensas verbais, por exemplo, elas só assim podem ser chamadas, se encontrarem em mim, tecido vulnerável para sua interiorização, ou seja; se alguém me atribui à mim, um apelido pejorativo ou um palavra de baixo calão, no pejorativo tom de causar impacto negativo, o mesmo só pode ser considerado viável se encontrar em mim, ressonância. Ex: Se alguém me chama de careca e de fato eu sofro de calvície, logo, isso não pode ser considerado uma agressão, já que trata de um fato e se ainda assim, isso me provoca desconforto, serve como alerta para que eu lide melhor comigo mesmo, me aceitando como sou. Se o fato se dá por conta de uma decepção, antes de mais nada é preciso avaliar o nível de expectativa que fora depositado em alguém e se esse mesmo alguém, sabia de suas expectativas.

Oras, temos por hábito gerar altíssimos graus de expectativa a outrem, ainda que no imaginário, no lúdico, sem transferir isso para um diálogo real, para uma situação prática, onde acabamos sofrendo por coisas que sequer aconteceram, pois boa parte desse todo, é táctil apenas no campo imaginário de cada um, logo, trata-se de uma injustiça condenar alguém pelo que esperamos que ele fizesse. Cada um sofre e vive às custas das próprias limitações apenas.

Para muitos, o ato de perdoar é uma prova de elevação, um atitude altiva, que engrandece e coloca o ser em um patamar diferenciado. Detalhando um pouco esse raciocínio, é possível perceber que, mesmo que as intenções sobre o perdão sejam, em suma, boas, os fins pouco justificam os meios, uma vez que, ao associar a abnegação e a superioridade psicoemocional do indivíduo, subentende-se que o mesmo o faria de forma gratuita, por ser assim e por sentir-se igual a todos. Isso cai por terra quando o gesto só acontece por conta do prêmio de promessa de elevação, ao qual ele está concorrendo, caso tenha a oportunidade de praticar o perdão, o que não compete com as teorias que abordam o tema.

Assim como em tudo, há a categoria classificada como oportunistas, que na ausência de outros meios, apelam para esse gesto, apenas como ferramenta de reaproximação, visando obter algum ganho, lucro ou vantagem em algo vislumbrado. Esse, por sua vez, é alguém cuja compreensão dos caracteres humanos está um passo ou degrau a frente ou acima da maioria e consegue, através da sua habilidade, persuadir e sensibilizar seu alvo, muitas vezes até transferindo culpas e responsabilidades, transformando-se assim, em um mártir da regeneração daquela fragilizada e combalida relação.

Existem, por certo, uma legião de pessoas, cujas parecem ser cada vez mais raras, que preenchem um perfil muito nobre, do ponto de vista humanitário, que são aqueles dotados do “dom da empatia”.

Estes indivíduos são capazes de análises multi complexas e multi fatorias, quando o assunto é sentimento alheio. Colocam-se no lugar alheio de forma tão abrangente, que é como se parecesse possível que ele reviva as emoções do ser em sofrimento, podendo assim, ponderar inúmeros pontos cruciais para o julgamento que fará sobre. A propósito, são indivíduos cujo juízo de valor, transcende as camadas superficiais de todo e qualquer acontecimento. Conseguem ir mais fundo em questões delicadas e dessa maneira, sensível e habilidosa, lançam o melhor de si a todo instante, entregando palavras ponderados e sobretudo, demonstram de forma muito clara e transparente, a verdade de seus sentimentos e pensamentos, conseguindo penetrar na órbita alheia, com leveza e delicadeza.

São seres dotados de altíssima capacidade de compreensão e assimilação. Consideram o ser humano, um personagem capaz de tudo e por assim entender, permitem-se avaliar com minudência todos os eventos dos quais participamos, sem a necessidade de se catalogar ou inserir o indivíduo em um nicho, em uma classe. Estes seres, quando envolvidos diretamente em uma situação onde o perdão é o objeto de maior valia, são perspicazes e audazes e não boicotam nem a si, muito menos a outrem, respeitando a necessidade que para muitos é premente, de sentir-se livre do peso da dor causada. Essas pessoas são como bombeiros, resgatantes, que tiram dos escombros, aqueles que foram soterrados pelas suas próprias ruínas, num gesto não de doação, mas de inteligência inquestionável.

Creio não ser oportuno entrar no mérito das questões que precedem o perdão. Primeiro, por ser muitas, incontáveis e segundo porque logicamente, desconheço alguém capaz de ir tão a fundo em apenas um texto. A psicanálise até hoje desenvolve estudos complexos e profundos sobre a postura humana e mesmo assim, são infindáveis as dúvidas e possibilidades. Mas o fato é que seja lá qual for a motivação do ato lesivo, o perdão segue sendo sim, uma potente ferramenta regeneradora.

Seja qual for o mote, o interesse, a condição ou a circunstância, poucas coisas potencializam mais alguém do que um abraço afetuoso e um pedido de desculpas seguido de um “eu te perdoo”. É como se nos libertássemos de um cárcere no qual nós mesmos tivéssemos procurado a entrada. É a saída de um labirinto escuro, sombrio, tenebroso.

Creio que tenha sido possível perceber, que cada um pratica o perdão ao seu modo. Dotados que somos de níveis variados de visão e entendimento, é razoável esperar e acreditar quem tudo sejam flores como nem tudo é espinho nesse campo. Talvez o que valha mesmo, seja, a despeito da motivação, continuar perdoando, a si e aos demais, pois vide infinitos exemplos, o perdão liberta. Ou então, façamos o que sugere o dramaturgo francês do século XIX, Alfred de Musset; “Na falta de perdão, abra-te ao esquecimento.”

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Flavio da Luz

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There are 2 comments

  • Cida Ribeiro disse:

    O perdão é uma atitude que isenta o ser humano, redimindo-o de uma culpa, ofensa ou dívida. É um processo que permite eliminar algum tipo de ressentimento, raiva, rancor ou outro sentimento negativo em relação a alguém ou a si próprio. O perdão liberta, cura, traz o equilíbrio necessário para que laços sejam refeitos depois de um confronto desagradável. Os empáticos estão bem à frente dos resistentes, porque são criaturas capazes de enxergar o real significado do perdão e o que as consequências dessa ação, são capazes de operar. É sabido que a falta do perdão gera problemas nas esferas psíquica e física, causando danos, muitas vezes, irreversíveis. Por isso, não relute, libere perdão e liberte-se!

    • Flavio da Luz disse:

      Perfeitamente, Cida. O não perdão é responsável direto por vários desarranjos psicoemocionais, os quais, seja por somatização ou por força intrínseca de suas características, acarretam em patologias, muitas delas gravemente lesivas, corroendo e carcomendo vivo, o indivíduo encolerizado.
      Creio que o perdão é o início de um processo, cujo entendimento caminha por veredas da mais profunda sabedoria, que nos levarão ao ápice, creio eu, de não nos contaminarmos por nada, de não nos sentirmos atingidos ao ponto de termos de barganhar, suplicar ou até mesmo ter de pedir perdão como maneira de nos livrarmos de uma dor gerada. Ascenderemos ao ponto de compreender que é possível evitar esse sofrimento desde a sua raiz, não criando matrizes que arvoram-se sobre nós e nossos sistemas vitais.
      Eis um caminho, possível e difícil de percorrer, mas que leva aonde muito poucos já chegaram.

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