Comportamento Cotidiano Vida
Liberdade não é solitude
26 de junho de 2017
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Liberdade não é solitude.

 

É indispensável entendermos ou apenas melhor compreendermos, que liberdade em nada se assemelha ao estado de solidão ou solitude, como usam os poetas. É muito comum encontramos pessoas que operam em suas vidas, um sistema de crenças que ao invés de coloca-las em direção à sublimação de seus intentos, cada vez mais os afastam, provocando tristeza e doenças.

O caso da solidão é típico. Confunde-se muito frequentemente, liberdade com independência, no sentido prático/literário. Ser livre consiste, entre tantas coisas, poder escolher com quem conviver e compartir de momentos, por exemplo, não obstante, logicamente, de também permitir que alguns momentos sejam vividos a só, em introspecção, em reflexão ou simplesmente, nos instantes de enfrentamento mesmo, onde a gana pela superação é o combustível disponibilizado pelo ego e que abastece o orgulho e a vaidade, nos pondo, muitas vezes, desnecessariamente sozinhos diante de uma contenda, a qual poderia ser dividida com outros, perfazendo uma sólida “frente de batalha”, tornando mais leve essas lutas.

Claro, isso não é apenas uma escolha racional e pródiga ou inglória, se preferir. Fomos, cultural e socialmente moldados para pensarmos um pouco assim. Cotidianamente, nos dizem que estamos sozinhos mas que somos gregários e que isso não é o bastante para formamos conjuntos consistentes. É como se o que diz respeito a gregário estivesse pautado apenas sobre o júbilo da vida. É como se só pudéssemos falar sobre o que provoca bem estar, sobre o que traz paz, sobre amenidades. Isso não é verdade. É exatamente nos momentos de grande adversidade que necessitamos demasiadamente, de pessoas para nos dar as mãos e nos auxiliar a superá-los. Nem precisa ser dito que isso, de fato, exige uma carga de empatia que nem sempre está disponível em todos de nosso convívio diário, costumeiro, mas há, escondido entre tantos rostos comuns, aqueles que estão dispostos a unir forças, não apenas para nos ajudar a superar uma batalha, mas porque compreendem que esta é uma maneira de sermos mais fortes, sem dispendermos de tanta força e energia.

Somos treinados para seguir a vida isoladamente e não nos damos conta de que muitas vezes, desgraçadamente, o que fizemos é usar as pessoas que estão ao nosso lado. Temos imensa dificuldade em dosar e equilibrar as cargas que depositamos sobre os ombros alheios. Ex: Identificamos em nossos grupos de amigos, aqueles cujo bom humo é saliente; aqueles cuja sabedoria é mais evidente; outros cujo a rabugice é incômoda; outros ainda, cuja solidariedade não tem fim e etc., e de posse dessas informações e conhecimentos identificados, selecionamos, de acordo com a demanda de instante, à quem recorreremos ou nos dirigiremos. É bem verdade que isso parece lógico, mas do ponto de vista fraternal, aos poucos, é o motivo principal de afastamento e enfraquecimento de vigorosas amizades, uma vez que todos, absolutamente todos, a despeito da capacidade de se posicionar por de trás de máscaras, tais quais os palhaços, cujos fazem da graça exagerada, um escape para suas dores existenciais, precisam de amparo, todos necessitam que alguém, com maior ou menor frequência, os olhe no fundo dos olhos e pergunte, com toda a disponibilidade possível, se está tudo bem e se há algo que por eles pode ser feito.

Reconhecer no outro, seja através do diálogo, seja através da alta sensibilidade, que este está carecido de intervenção solidária, é, ainda que subjetivamente, fortalecer laços e estabelecer uniões mais viçosas, que sutilmente vão se tornando indispensáveis para a condução dos processos telúricos (no sentido de vida enquanto terrena).

Aos poucos, substitui-se, inteligentemente, ações como por ex.: “Sinto que ele está precisando de algo. Vou rezar por ele”; por.: “Vejo que ele está precisando de algo. Vou até lá perguntar o que posso por ele fazer”. Embora eu acredite com ressalvas nas uniões oriundas de magnetismo, no sentido cósmico da coisa ou talvez para simplificar essa ideia, trazer um tom espiritual, onde as pessoas que seguem essas doutrinas, acreditam que estão ligadas por fios invisíveis, cujo destino está tramado tal qual um labirinto infinito, de única saída e incontáveis caminhos e a força do seu pensamento é o suficiente para fazer todo o bem possível, principalmente através de orações e cânticos…Isso  não é uma crítica ao processo, de maneira alguma, é apenas uma exposição de contrastes propositais, que visam exibir que há uma ligeira fraqueza e até negligência por parte dos que utilizam desse recurso “espiritualizado”, para se aproximar e promover “o bem”. Me parece notório que antes de procedermos dessa maneira, há muito o que fazermos, no sentido carnal mesmo. Abraçar, tocar, perguntar, fazer, colaborar, estar presente, se mostrar interessado ou apenas permitir que aquele cuja necessidade grita momentaneamente, tenha plena convicção de que ele não está sozinho, mesmo que opte por enfrentar determinado problema dessa maneira.

Inúmeras vezes, nossa fraqueza toma de assalto nossa coragem, justamente por nos sentirmos sós e não por de fatos estarmos. A ideia de solidão está diretamente associada ao desamparo, que por sua vez, provoca desarranjos sistêmicos, justamente por sermos “feitos”, por assim dizer, para vivermos em comunidade, coletivamente. Uma vez cônscios de que jamais estamos desgarrados, nos sentimos mais confiantes.

Respeitar que há pessoas que precisam ou simplesmente escolhem viver sozinhos é um ato nobre. Contudo, devemos permanecer atento aos sinais de enfraquecimento que a persistência na solidão provoca. Muitos são ortodoxamente fiéis a alguns propósitos pré estabelecidos desde as primeiras infâncias, por exemplo, e carregam essas ideias, não como projetos mas como fardos, que com o passar do tempo e com o avanço quase sempre inconteste de sua obsolescência, denunciam o vencimento de seu prazo de validade, que a partir daí, exige-se a tomada de algumas medidas, que começam com o descarte imediato, passando pela reprogramação e findando com a projeção de uma nova diretriz. Essa insistência teimosa e cega, não produz nenhum efeito prático positivo no ser. Muito pelo contrário. O desgaste leva à miséria de ideias e o empobrecimento das forças intrínsecas do ser, que vão encontrar reposição, no seio coletivo, que é o manancial de toda nossa “virilidade existencial”.

Seja, pois, perseverante no que diz respeito aos seus projetos. Arranje, ordene, refaça, corrija, desista de alguns pontos, acrescente outros…Um bom projeto não nasce pronto, ele progride aos poucos, porém, não abra mão, em hipótese alguma, de compartilhá-lo, de fazer com que as pessoas de seu convívio, aquelas que te causam simpatia gratuita, participem disso.

A alegria de fazer parte de coisas alvissareiras é a matéria prima de muitas vitórias que estão ocultas sob as sombras do medo de ruir, de fracassar. Mostrar para o mundo que é possível progredir mesmo errando de começo, é o exemplo mais tradicional das provas de que o progresso é o aprimoramento constante dos nossos próprios erros e que não haveria sentido algum estudar o aprendizado, se ele não fosse algo progressivo e transformador.

Não se culpe e não condene-se, caso esteja neste instante, vivendo um momento de solidão. Apenas entenda que as circunstâncias globais te levaram a isso mas que deste momento em diante, é em conjunto e parceria que você vai viver, mais e melhor.

Por fim, oxigene sua mente com o seguinte pensamento: É permissível sim, ter momentos de solidão, desde que isso se dê sob demandas específicas, as quais não oferecem espaços para terceirização de responsabilidades, afinal, a sua “unidade” está submetida a processos de vida, que vão das questões morais e doutrinárias, passando pelas civis e etc., mas jamais aceite a ideia de que você nasceu para ser sozinho. Sobretudo, é um desrespeito brutal contra aqueles que, ainda que silenciosamente, se mostram “dependentes” da tua companhia.

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Flavio da Luz

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There is 1 comment

  • Cida Ribeiro disse:

    Lembrei-me da citação de Osho: “É belo estar só e também é belo amar, estar com pessoas. E essas dimensões são complementares, e não contraditórias. Quando você estiver na companhia de outras pessoas, aproveite, e aproveite ao máximo; não há necessidade de se preocupar com a solitude. E, quando estiver saturado dos outros, mergulhe na solitude e aproveite-a ao máximo.” Pra quem está sempre em busca da felicidade e do amor nos outros, do reconhecimento pelos seus atos, é muito recomendável essa leitura. Não se pode iniciar nem manter um relacionamento(qualquer um), se não estivermos bem conosco. Acabamos projetando no outro as nossas frustrações e angústias e vice-versa. Nenhuma relação se sustenta assim. Por outro lado, viver apenas na prática da solitude também não nos realiza. A solitude não é a única coisa importante, relacionar-se é tão fundamental quanto. Precisamos do outro. O outro precisa de nós. Equilíbrio é indispensável.

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