Comportamento Cotidiano Reflexão Vida
A aurora da transformação.
4 de julho de 2017
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Repousa tua angústia na certeza de um amanhã melhor e verás assim, o medo dar lugar à esperança. Bem poderia ser uma típica frase de um livro qualquer de auto ajuda, mas nós podemos utilizá-la de um modo um pouco mais amplo e até conceitual.

Não é segredo para ninguém que a ansiedade tem assumido o posto de mal do século. A sociedade moderna parece mesmo ter adotado esse dragão como mascote de estimação e tenta, através de uma luta diária, dominá-lo, com muita força e pouco jeito é verdade. Nessa batalha insólita, as armas que utilizamos para enfrentar o lado negro da força são cartuchos de ansiolíticos, pistolas diazepânicas, bombas psicotrópicas e por último, o moderno – mas nem tanto – belicismo das terapias cognitivas, que se apresentam como uma espécie de casamata ou trincheira disposta entre os lados conflituosos, mediando o estresse da guerra, sorvendo e disponibilizando em métodos individuais, soluções menos invasivas, na tentativa de harmonizar a relação mascote-sociedade.

Deixando de lado a brincadeira linguística do parágrafo acima, quer-se dizer que embora as terapias cognitivas, principalmente os métodos psicanalíticos Freudianos do século XX, não sejam exatamente uma novidade, eles vem arvorecendo socialmente há pouco tempo. Atribui-se a isso, um misto de coisas que vão desde o preconceito contra os remédios psicofármacos até mesmo a ampliação da divulgação metodológica sobre o funcionamento real das terapias, compondo um ambiente de curiosidade que vai de encontro a qualidade buscada por quem necessita de intervenções dessa área e sente-se fragilizado psicologicamente para enfrentar a ortodoxia psiquiátrica, por exemplo.

Sendo assim, cada vez mais temos pessoas dispostas a, através de várias ferramentas disponíveis, dentre elas, indubitavelmente, as ligadas a tecnologia, falar sobre si, abrindo-se para a ideia do novo, não como ideologia de salvação, mas como um “mundo de ideias” até então indisponíveis para quem vive no limbo das emoções e sensações.

Descobre-se com muito mais facilidade hoje em dia, que pessoas infelizes o são por conta da ansiedade descompensada, que por sua vez, ajuda no processo criativo das expectativas, as quais, quase que corriqueiramente, não correspondem aos fatos possíveis e alcançáveis, tornando-se também, responsáveis por grande frustração. Logo, aquele sentimento de esperança em relação a uma ação ainda não construída e apenas idealizada no imaginário, torna-se, fatalmente, objeto de grande tristeza pela sua não realização.

O ambiente imaginário, como se sabe, a despeito de seu alto poder criativo, tem uma característica muito peculiar: a de ter dificuldades em separar o mundo real das proposições que o auto estímulo produz. Por isso, é muito comum encontrarmos pessoas que frequentemente afirmam ter dito algo sem o tê-lo feito ou pior, aquelas cujos projetos não saíram da mente mas que já permearam toda a sensorialidade cerebral, a qual, sensível que é, não distingue a inexequibilidade daquilo que projetou tamanho anseio. Logo, como se percebe, a fantasia ocupa o lugar do real e naturalmente, como é de se esperar, sem a tangibilidade encontrada nos contatos reais e antropomórficos, é passível compreender que disto gera-se uma série de problemas, principalmente os ligados a ansiedade.

Sem nos darmos conta, construímos um mundo de ilusões, os quais nos encantam pelos vieses de alegria e salubridade, mas que nos entristecem pelos instantes em que as coisas parecem se chocar com uma realidade implacável, opressora e dissonante de nossas projeções. Passamos a criar no cativeiro da mente, o monstro que irá nos engolir. Por ser obra de nossa criação, subjetivamente falando, temos imensa dificuldade de nos desapegarmos de tal objeto. É como se parte de nós estivesse ligada a isso e como se não bastasse o dissabor provocado pela sua concepção lúdica não palpável, sentimo-nos inteiramente responsável pelo seu desenvolvimento inteligível, na franca tentativa de dar vida e forma para o que já fracassou desde a sua concepção inicial.

Embora seja um relato que denote certo peso e dureza da fala, esses episódios são comuns e fazem parte também, acreditem, de muitas mentes brilhantes, as quais são inclusive, seguidas por outras tantas pessoas. Talvez seja uma condição intrinsicamente humana, uma ferramenta de potencial ainda em evolução e desenvolvimento, a qual poderá, em algum momento da vida, seja já no presente (época atual) ou em um futuro qualquer, próximo ou distante, que passará a nutrir a boa saúde, criando conexões mais diretas entre a mente imaginária e o mundo das possibilidades reais. Quiçá seja esse um dos grandes desafios ou parte do devir humano, conceber um meio sútil e bem delineado de transformar a ideia já lapidada e filtrada das negatividades, em ações que propiciem bem estar para si e para o coletivo de modo geral. Dessa forma, passaremos aos poucos, a deixar de lado a ideia ainda incutida, parece-me, de termos de destinar parte de nós, de nosso tempo, a um tipo de sofrimento qualquer, por certo, ideia essa associada a fragmentos descontextualizados de doutrinas antigas, as quais afirmam se condição sine qua non ao devir humano, passar por sofrimentos e penúrias para se conquistar júbilo e glória.

Tem-se a impressão de que aos poucos, essa ideia está sendo desconstruída. Vagarosamente, nota-se uma atividade viçosa no sentido de erradicar esse ponto de partida do caminho da felicidade. Sabe-se, claro, que a resiliência constitui parte importante ao conjunto de valores que constituem o sentimento de plenitude, de felicidade, mas tem-se a nítida noção de que já não é mais tão necessário, para muitos blocos sociais principalmente, passar pelo sofrimento para se atingir o contentamento.

Dessa maneira, estima-se que o poderio pensante de um ser, aos poucos, será moldado para cada vez menos consolidar fantasias devastadoras no âmbito das emoções e do psicologismo íntimo, de modo que a compreensão desse fator, paulatinamente, dará lugar a processos mentais sólidos que ao invés de divagar e criar ilusões perigosas, se voltarão a uma tomada perceptiva mais sensível do mundo real a sua volta e com isso, interiorizar coisas que justifiquem apenas a paz e o bem estar global de sua estrutura física/emocional/psicológica.

 

 

 

 

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Flavio da Luz

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There is 1 comment

  • Cida Ribeiro disse:

    Muito pertinente seu artigo, Flávio da Luz! As emoções influenciam tremendamente nossas vidas e a verdade é que se nós não controlarmos nossas emoções, elas passam a nos controlar. E como destacado no seu texto a emoção mais proeminente em nossos dias é a ansiedade ou preocupação. Em tese, a ansiedade é um parasita que estrangula nossas emoções e rouba nosso viço. Como você bem disse, ela é considerada o mal do século, pois atinge pessoas de todos os estratos sociais, de todos os credos religiosos e de todas as faixas etárias. Ao meu ver o sentido da palavra ansiedade é estar distraído enquanto é puxado a um estado de terror, apreensão e incerteza, falo com conhecimento de causa. Isso pode ser causado por eventos passados, situações presentes e possibilidades futuras. A ansiedade é um ‘medo’ de não poder controlar uma determinada situação, ou de se sentir vulnerável a ela, é uma espécie de asfixia da alma, um estrangulador das emoções. Ela antecipa problemas fictícios e nos leva a sofrer por eles como se já estivessem acontecendo e afeta negativamente nossas vidas, divide nossas mentes e nos afasta do que realmente é importante. Diminui a nossa produtividade. Afeta nossos relacionamentos, pois sobrecarregamos com o nosso medo os que nos cercam. Afeta nossas decisões, pois podemos nos tornar precipitados. Rouba a nossa alegria e a paz interior. Afeta a nossa energia, roubando todas as nossas forças. Uma pessoa ansiosa, consequentemente, vive sobressaltada. Não descansa. Não tem paz. Quando nós não lidamos corretamente com sua causa, passamos a experimentar inúmeros problemas físicos e emocionais. A batalha contra a ansiedade é decidida no campo da mente. Se focarmos nossos pensamentos nos problemas, seremos vencidos por ela. A vitória sobre a ansiedade não está apenas no campo do conhecimento, mas, sobretudo, na arena da prática, na geografia da obediência.

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